A caminho do México, Havana

1 A causa fundamental da divisão da Igreja do Ocidente e da Igreja do Oriente e do cisma em 1054, com a excomunhão mútua, foi política, com reivindicação de importância e poderes de Roma e Constantinopla, respectivamente. Depois, sucederam-se lutas, inclusive com massacres de um lado e do outro, com o que isso significa de indignidade e escândalo entre cristãos.

Em 1964, o Papa Paulo VI e Atenágoras I, Patriarca de Constantinopla, abraçaram-se em Jerusalém, concordando em declarar nulas as excomunhões. Houve mais encontros entre Papas e Patriarcas. Mas, em quase mil anos, isso nunca aconteceu, até ao passado dia 12, entre um Papa e um Patriarca de Moscovo. Agora, os tempos são outros; o Papa é Francisco e o Patriarca de Moscovo e de toda a Rússia é Cirilo; a ameaça de uma Terceira Guerra Mundial é real; a perseguição dos cristãos no Médio Oriente e no Norte de África é brutal; os desafios para as Igrejas são gigantescos; a importância de Putin na geopolítica é enorme; o pedido de Jesus pela unidade, sempre presente... Os esforços da diplomacia ao longo de anos conseguiram o encontro, com razão considerado histórico, de Cirilo, de visita a Cuba, e de Francisco a caminho do México.

2 Houve um comunicado conjunto, assinado em Havana, símbolo das disputas dramáticas do Velho Mundo no século XX e das esperanças do Novo Mundo no século XXI. Fica aí o essencial.

"Somos irmãos, não somos concorrentes." E, assim, sublinham a alegria da reunião de irmãos, que se encontram para falar de "coração a coração" e debater "as relações mútuas entre as Igrejas, os problemas palpitantes do nosso rebanho e as perspectivas do desenvolvimento da civilização humana". Partilham "a Tradição espiritual comum do primeiro milénio do cristianismo" e sentem fortemente a necessidade da "obtenção da unidade mandada por Deus" e da colaboração entre católicos e ortodoxos, para poderem "em conjunto responder aos desafios do mundo moderno", aos quais, nas mudanças em curso, não podem ser "indiferentes".

A sua atenção dirige-se principalmente para aquelas regiões do mundo nas quais os cristãos são brutalmente perseguidos: "Em muitos países do Médio Oriente e da África do Norte, extermina-se famílias completas de irmãs e irmãos nossos, aldeias e cidades inteiras." "Na Síria, no Iraque e noutros países do Médio Oriente observamos com dor o êxodo em massa de cristãos da terra onde a nossa fé começou a espalhar-se e onde viviam desde os tempos apostólicos com outras comunidades religiosas." Levantam as suas vozes em defesa desses cristãos, solidarizando-se igualmente com o sofrimento dos seguidores de outras religiões. Fazem apelo à comunidade internacional para que se una na ajuda humanitária - "não podemos permanecer indiferentes ao destino de milhões de migrantes e refugiados" - e na obtenção da paz, pondo "fim à violência e ao terrorismo". Pedem a Deus que "não permita uma nova guerra mundial".

Testemunham "o alto valor da liberdade religiosa", dando também conta de que "algumas forças políticas, guiadas pela ideologia do secularismo", tendem a empurrar os cristãos para as margens da vida pública. Manifestam respeito pelo "contributo de outras religiões para a nossa civilização", mas estão "convictos de que a Europa deve manter-se fiel às suas raízes cristãs". A violência não pode justificar-se em nome de Deus e, nestes tempos conturbados, "é necessário o diálogo inter-religioso".

"A família é o centro natural da vida de um ser humano e da sociedade." Estando fundada no "amor fiel entre um homem e uma mulher", "lamentam que outras formas de convivência se equiparem agora com esta união". Apelando para "o respeito inalienável pela vida", condenam o aborto e a eutanásia.

"Os ortodoxos e os greco-católicos" - estes são católicos de rito oriental unidos a Roma - "precisam da reconciliação e da busca de formas de convivência mutuamente aceitáveis." Neste contexto, lamentam "o enfrentamento na Ucrânia", pedindo às duas Igrejas que trabalhem para "conseguir a harmonia social, abster-se de participar no confronto e de apoiar o desenvolvimento do conflito".

"Poderemos, num tempo crucial, dar testemunho conjunto do Espírito da verdade? Disto depende, em grande medida, o futuro da Humanidade."

3 Convicto de que "a unidade se poderá realizar", Francisco seguiu para o México, para dar testemunho da verdade. Ao lado das "periferias humanas" (índios, presos, migrantes...) e arremetendo, na presença do Presidente, contra "a corrupção, o narcotráfico, a exclusão das culturas diferentes, o sequestro e a morte" e, num discurso duro aos bispos, contra a "auto-referencialidade" e o "carreirismo", pedindo-lhes "coragem profética" na denúncia do mal e "transparência" entre eles: "Briguem como homens e rezem como homens de Deus."

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