A lipoaspiração do Macedo

Paulo Macedo chegou à Direcção-Geral de Contribuições e Impostos e o País indignou-se: lá vem mais um pavão ganhar uma fortuna. Passaram umas semanas e começou a ficar claro que o Macedo afinal não era pavão, era espanador. Trabalhava muito e trabalhava em silêncio, sem meter o ego e as plumas pelo caminho. Era eficaz na exacta proporção do currículo que exibia. Em poucos anos, a máquina fiscal ganhou vigor e alguma modernização. Os funcionários públicos da DGCI - uma boa parte deles - recuperaram o espírito de equipa e, com esse bálsamo, a fuga aos impostos começou a diminuir, a cobrança a aumentar e os cofres públicos a encher. Não é nada fácil elogiar quem nos vai ao bolso, mas Paulo Macedo, naquela época difícil e num ambiente hostil, fez quase tudo com elegância. Deu uma aula de gestão ao sector público: como fazer acontecer sem espezinhar. Não foi loucamente à caça do contribuinte médio, já espremido e sem meios para martelar as contas; foi atrás da economia informal; dos empresários que, ano após ano, apresentavam o IRC no vermelho e o IRS com o salário mínimo, apesar de uma vida notoriamente faustosa.

Fast forward: ei-lo agora ministro da Saúde. Com um orçamento de oito mil milhões de euros e um grupo (armado) de interesses em cada esquina (indústria farmacêutica, farmácias, médicos, enfermeiros, fornecedores, sindicatos, doentes e hipocondríacos - um enxame de mão estendida), o objectivo é muito difícil: reduzir a despesa sem afectar a qualidade do SNS. Um gesto político falhado, uma decisão precipitada e lá vai tudo para as urgências em estado crítico. Foi o que aconteceu há uns dias, quando Paulo Macedo disse que ia reduzir o número de transplantes em Portugal. Transplantes ninguém os faz por moda ou capricho. Não é o mesmo que meter implantes mamários. Se os hospitais públicos estão a fazer transplantes a mais face à média dos países evoluídos com os quais se devem comparar; ou se o estão a fazer a um preço mais alto e alguém está a aproveitar-se disso - então que o ministro o quantifique e explique. Nem todos vão entender, mas muitos vão compreender. O SNS depende desse bom senso.

Correia de Campos, o ex-ministro da Saúde de Sócrates, fez parte do trabalho difícil. Macedo que faça a outra. Para começar, perceba que fazer uma lipoaspiração ao Estado não equivale a prescindir dos órgãos vitais - é por isso que se chamam vitais. Na verdade, até os ministros precisam deles.

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