Os jacarandás estão prontos para florir. Aquilo ainda não acabou

Aqueles foram tempos dos mais entusiasmantes da minha vida e por isso não tenciono ser imparcial neste texto. Foi esta aliás a condição prévia para escrever sobre este assunto. Num dos poucos períodos da minha vida profissional em que não fui jornalista, comecei a trabalhar na Expo"98 quando já muitas obras estavam em andamento. Tinha também acompanhado a fase inicial do processo, como jornalista, no jornal Público.

Antes disso aquele era, para mim, o lugar de passagem nos solavancos dos autocarros, e antes ainda tinha sido espaço de brincadeira a bordo dos hidroaviões abandonados na Doca dos Olivais, onde funcionou o Aeroporto Marítimo de Cabo Ruivo em plena Segunda Guerra Mundial.

Ainda hoje moro perto, vou frequentemente até lá e sinto um enorme orgulho na transformação radical daquele espaço onde Abecasis tinha mandado despejar o lixo de Lisboa, naquilo a que chamou aterro de Beirolas e que não passava de uma lixeira. Ao lado ficavam um matadouro anacrónico, uma refinaria ainda mais anacrónica. Muitos, muitos hectares da zona ribeirinha de Lisboa desaproveitados.

Há sempre um antes e por isso tenho de começar em algum momento. Escolho o dia em que entrevistei Peter Chermayeff, o arquiteto responsável pelo projeto do Oceanário. À nossa volta havia contentores a rodear a Doca dos Olivais, esse fabuloso trabalho de engenharia dos anos 1930-40, estava cheia de lodo e de restos de embarcações apodrecidas. E ele, sábio, olhava para aquilo, apontava o Mar da Palha e dizia: "Isto é maravilhoso." Aí está a capacidade intrínseca aos bons arquitetos: ver aquilo que vai ser, enquanto nós, normais, vemos aquilo que lá está.

E portanto Chermayeff, um norte-americano filho de um russo do grupo da Bauhaus, estava ali a ensinar-me que não havia nada de mais extraordinário do que registar a memória daquilo que vai deixar de existir, sabendo que ali vai nascer uma novidade que vai tentar apagar as nossas recordações.

Mais tarde senti o peso dessa novidade, quando fui com Santiago Calatrava ver o interior da Gare Oriente, no dia em que foram retirados os andaimes. Bem sei que muita gente critica os cais da estação ferroviária por estarem sujeitos às intempéries e ao sol, mas falo agora do interior, dos andares que dão acesso ao metropolitano e aos estacionamentos. Calatrava tinha lágrimas nos olhos quando viu aquele esqueleto que hoje só podemos imaginar, ainda sem lojas nem cartazes, apenas aquela estrutura de betão feita de arcos sucessivos. "Parece uma gravura de Piranesi", murmurou, e eu não passo por ali sem recordar o que ele disse. Era exatamente o que parecia, uma gravura de Piranesi. Tinha entrevistado Calatrava quando ganhara o concurso e ele explicou-me a ideia através de desenhos do que ia aparecer depois. Tenho esses esboços: está tudo lá.

Depois houve os diferentes dias da "pala", a cobertura espantosa do Pavilhão de Portugal, aquele risco tão simples de Álvaro Siza e que foi uma das mais pesadas obras de engenharia de toda a Expo, graças ao projeto inovador do engenheiro Segadães Tavares, mestre deste ofício. O dia - 24 horas sucessivas - em que o betão foi despejado ali, enchendo sem parar a estrutura metálica, para que não houvesse fissuras. O dia em que foram tirados os andaimes e "aquilo" não caiu. Os dias em que olho para o edifício e não percebo porque está abandonado, 20 anos depois da exposição mundial.

Tal como a Gare do Oriente teria ficado linda só em esqueleto, o mesmo pensámos todos os que ali observámos a construção do pavilhão que já teve tantos nomes e hoje é Altice Arena. Apetecia deixar à vista aquela estrutura de madeira nórdica, um barco ao contrário, que ainda se pode ver no interior mas que foi coberta depois por fora. Espantoso é também o pavilhão que hoje é dedicado à ciência e era do Conhecimento dos Mares, com a sua nave gigante e quase desmedida, projetado por Carrilho da Graça. E mais, mais obras que nos envolviam a tal ponto que um dia foi necessário fazer uma ordem de serviço a proibir visitas aos fins de semana com as famílias: todos queríamos mostrar aos nossos o que estava ali a nascer, mas afinal de contas aquilo era um estaleiro, perigoso como qualquer estaleiro, e não um passeio de domingo com as crianças.

Recordo os artistas que pintaram corais e tantas maravilhas no interior do Oceanário. E os artistas que encheram toda a zona de obras de arte, a girafa ao espelho, de Fernanda Fragateiro, as calçadas de Xana ou Pedro Proença, o Homem Sol de Jorge Vieira. E os vulcões e outros jogos de água que ainda nos refrescam à passagem. Mas há um ponto que para mim ultrapassa todos os feitos do projeto: a criação de um espaço verde onde havia apenas destroços e aridez. Não é só o Parque do Tejo e do Trancão, nem o Jardim Garcia de Orta nem o jardim do Cabeço das Rolas, este último de Gonçalo Ribeiro Telles. É cada uma das 30 mil árvores e 40 mil arbustos que foram plantados criteriosamente. A cada ano, todo este mundo se vai renovando em cores e cheiros, crescendo a criar sombras e nova paisagem. Ou a albergar os papagaios verdes e outros pássaros, como a palmeira múltipla que se reproduz, exuberante, numa esquina da Escola Vasco da Gama e que já não me lembro de que parte do mundo veio.

Correu tudo bem? Sabemos bem que não. Não houve erros, abusos, crimes até? Claro que houve. Mas o balanço final é feito de outras coisas, de uma zona da cidade que deu o ponto de partida para a ligação ao rio e para a renovação urbana. E então lembro-me daquele dia 22 de maio de há 20 anos em que vimos entrar os primeiros visitantes e sentimos por dentro: isto começou. Ainda não acabou.

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