"O contrário do bem não é só o mal, é a indiferença"

Lilli tem 12 anos e participa numa manifestação que reclama ao governo britânico que apoie os refugiados. O que pode ela fazer, além de manifestar-se? "Convidar crianças a passar um dia agradável na minha escola", propõe, é o que está ao seu alcance. Ficamos a saber, na conferência de imprensa que se segue à apresentação de Sea Sorrow, que Lilli é filha do produtor do filme onde essa cena surge, o realizador Carlo Nero. Subentendido fica outro parentesco: Carlo é filho de Vanessa Redgrave, a atriz que realizou esta obra que é ao mesmo tempo comovente e poderosa.

São três as gerações que assim se juntam num mesmo drama. No centro de tudo está aquela mulher de voz fragilizada por 80 anos intensamente vividos - e por um violento ataque cardíaco em 2015. Ela dirá que o tempo está a passar rapidamente, mexendo os dedos num gesto de urgência. Ela não vive sossegadamente, nunca viveu sossegadamente. Correspondeu sempre a esse apelo íntimo de estar atenta às pessoas, ao mundo, às injustiças.

Ela própria, nascida em 1937, foi uma entre os dois milhões de crianças retiradas de Londres para escapar à Blitzkrieg, e durante muito tempo teve pesadelos com o céu vermelho de Coventry bombardeada - onde morreram duas mil pessoas, em novembro de 1940. Está preocupada com a situação dos refugiados, e sobretudo das crianças, não só pelo presente que vivem tão duramente mas também pelos efeitos traumáticos que sofrerão no futuro.

Com ela está Lord Alfred Dubs, a quem chama simplesmente Alf, um velho trabalhista. Ele foi um entre os 669 crianças e jovens judeus salvos da ocupação nazi da Polónia e recorda o momento em que o comboio em que viajavam, assustados e exaustos, passou a fronteira entre a Alemanha e a Holanda, então livre, e como essa passagem foi saudada pelos adolescentes - os mais velhos do grupo.

Mas não são apenas as memórias de infância que os trazem a Sea Sorrow, um documentário filmado em campos de refugiados - incluindo a selva de Calais, entretanto desmantelada. Ambos têm vidas cheias, realmente comprometidos e envolvidos em causas.

Vanessa Redgrave nasceu numa família de atores: os avós paternos, o pai, a mãe, os dois irmãos, os filhos, os sobrinhos, a neta Daisy Bevan. Até Liam Neeson faz parte do clã - foi o marido de Natasha, a filha mais velha de Vanessa que morreu em 2009. É quase como se Vanessa tivesse nascido num palco de teatro, de tantas peças que interpretou. Fez muito cinema - quase uma centena de filmes, entre os quais Blow Up de Antonioni, Julia de Fred Zinnemann, Howards End de James Ivory, Isadora de Karel Reisz. Fez muita televisão também. Creio que o último papel em que a vi foi na série Black Box (2014) onde era a psiquiatra que atraía inevitavelmente a atenção da câmara e dos olhares. Depois dessa série continuou a fazer filmes - o mais recente é deste ano - Film Actors Don"t Die in Liverpool - e também televisão e teatro. No ano passado, foi a rainha Margaret, em Ricardo III (Ralph Fiennes), no Almeida Theatre de Londres.

Em meados dos anos 1970, Elliot Gould atendia o telefone a Vanessa dizendo: "Daqui fala Groucho Marx." E um dia, conta ela na autobiografia, ela esteve em casa de Groucho, "o velho senhor, muito divertido e cortês" e ele falou-lhe das suas lutas com os estúdios. Isto aconteceu quando Vanessa Redgrave procurava arranjar fundos para criar uma escola marxista em Londres, por volta de 1975. Não era um capricho, vinha na sequência de um percurso em que Vanessa juntou o trabalho profissional como atriz, a militância política e a vida com a família e os amigos.

Em 1978, a Academia de Hollywood deu-lhe um Óscar pelo desempenho em Julia, apesar de muitas ameaças porque Vanessa tinha feito o documentário The Palestinian, apoiando a OLP. Fez um discurso que provocou alguns protestos e um coro de aplausos, embora lhe tivessem pedido que dissesse apenas "muito obrigada", numa sala com segurança reforçadíssima.

Sea Sorrow chega na próxima semana às salas de cinema de todo o país. Um filme para ver e discutir, porque "o oposto do bem não é só o mal, é a indiferença". Palavras de Carlo Nero.

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