Frascos, caixas e saquinhos de pano. Menos é mais, já dizia o outro

Uma pessoa levantava-se para ir para a escola (era o meu caso), abria a porta da rua e no puxador, do lado de fora, estava pendurado um saco de pano com pão fresco. No chão, havia garrafas de leite do dia que era conveniente ferver - por cima ficava uma camada de nata. Dentro de casa estava o jornal, dobrado e atirado com perícia pela janela deixada entreaberta. Ao sábado, o padeiro, o leiteiro e o ardina passavam para receber .

Isto era assim, era o habitual na Lisboa cinzenta, uns pobres, outros remediados e alguns ricos. Dizia-se mesmo assim: pobres, remediados, ricos. Os homens vestiam-se de cores escuras, as mulheres também, e havia costureiras e cabeleireiras que iam a casa. Na praça, escolhia-se uma galinha ou um coelho e o vendedor matava o animal que logo ali depenava ou esfolava, e o cartucho de papel pardo com uma dúzia de ovos tinha sempre 13.

Vem isto a propósito de duas coisas. Uma está no Campo Grande e é a belíssima exposição sobre a feitura do livro Lisboa Cidade Triste e Alegre de Victor Palla e Costa Martins, a mostrar muito mais do que as fotografias que os dois captaram no final dos anos 1950. Era no tempo em que leiteiros, padeiros e ardinas se moviam de madrugada pelas ruas, recebendo por esse trabalho minucioso e pesado uma ridícula percentagem. Uma Lisboa sobretudo triste, há que dizer. E sem dúvida que a exposição está no lugar certo, no Palácio Pimenta, do Museu da Cidade, entre pavões, caracóis gigantes, azulejos, gravuras sobre o terramoto e as 30 fotografias de Lisboa vista do rio, de José Manuel Costa Alves

A outra é a notícia de que em Londres a distribuição de leite ao domicílio em garrafas de vidro, para evitar o ciclo do plástico e do desperdício, está a aumentar exponencialmente. A história apareceu em finais de fevereiro mas só agora a vi: pelo menos duas empresas distribuem leite do dia porta a porta - a milk&more e a Parker Dairies. Fornecem mais produtos, como pão, batatas, ovos, mercearias várias. As encomendas podem ser feitas online na noite anterior (a minha mãe prendia um recado em papel no saco do pão, com um alfinete-de-ama) e os pagamentos com cartão de crédito, as carrinhas de distribuição são elétricas.

Um dos leiteiros, Ian Beardwell, que trabalha nisto há 27 anos, disse ao Evening Standard que foi o programa Planeta Azul, de David Attenborough ,o grande catalisador da iniciativa. "As empresas dizem que os jovens consumidores e as famílias parecem dispostos a pagar mais pelo serviço, apostando na defesa do meio ambiente", diz o jornal.

Também por cá temos circuitos de distribuição de cabazes de verduras e fruta, e também de peixe, e recordo que há uns anos houve quem arriscasse, sem êxito, retornar à entrega madrugadora de pão. Há uma coisa que sei: todas as semanas, o saco que reservo para acumular embalagens fica cheio, a precisar de uma visita aos caixotes amarelos da reciclagem.

Recentemente, apareceram em Lisboa casas de venda a granel. Pensei: hum, isto não vai pegar, é mais prático levar um pacote de arroz de marca conhecida no carro do hipermercado. Fui a uma loja e vi sucessivos clientes, sem que a loja ficasse vazia um minuto, munidos de sacos plastificados, de hipermercado, ou de pano grosso, e dentro deles frascos, caixinhas, saquinhos de tecido. Entravam, dirigiam-se ao cilindro do arroz ou dos cereais para as crianças - há umas almofadinhas recheadas de chocolate que percebi serem muito populares -, despejavam a quantidade que queriam, pesavam na balança eletrónica. Quem não tivesse recipientes podia comprá-los ou usar sacos de papel. Não compravam farinhas estranhas nem sementes exóticas, que também lá estão. Farinha, arroz, esparguete, amêndoas, até detergentes.

António Câmara, na entrevista que deu nesta semana ao DN/TSF, fala da harmonização do local e do global, da partilha de bens e serviços, da rede de cumplicidades que foi central na nossa capacidade de ultrapassar o pior da crise. Eu não passo sem ir semanalmente ao mercado onde os vendedores tratam os clientes por tu e obrigam a provar os frutos antes de escolhermos, conversam sobre os filhos, os pais que vão envelhecendo e assim. Peço ervas, e dizem todas as semanas quando me entregam salsa, coentros e hortelã: "Esta é da boa, chegou ontem da Colômbia." Não dá para escrever aqui o que dizem quando chega o tempo dos marmelos.

Tudo isto a propósito dos milkmen - a que o Evening Standard acrescenta as milkwomen - de Londres. Não tenho saudades de ter à minha porta serviços penosamente cumpridos por pessoas que sobreviviam no limite da pobreza, tratadas com condescendência e um dinheirinho a mais no Natal. Mas gosto desta dimensão humana e se conseguir que o saco para reciclar fique cheio menos vezes, prefiro.

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