A ditosa Peregrinação do transmontano bailarino

Quando pela primeira vez o coro de marinheiros irrompe no ecrã a cantar, é uma enorme surpresa. Até então, eram marinheiros do século XVI, com os seus trabalhos numa embarcação onde Fernão Mendes Pinto iniciava a peregrinação em direção ao Oriente. João Botelho, o grande inventor, fez o impossível e levou para o cinema a enorme obra do andarilho.

Quando realizou Os Maias, ele criou cenários da velha Lisboa através da pintura excecional de João Queiroz. Contornou assim a dificuldade do baixo orçamento mas inventou uma forma de nos contar a história e de nos mostrar a cidade num deslumbramento. Em vez de telas, Botelho traz agora a polifonia dos coros, com cantores que, de tão expressivos e imersos no ambiente, são realmente atores.

"Estou velho", diz João Botelho, para explicar porque quer trazer para o cinema grandes obras da literatura portuguesa. Mas vendo o filme fica evidente que não há nada de velho aqui. Ele já tinha transformado o Livro do Desassossego, Os Maias, A Corte do Norte de Agustina em, como ele diz, introduções às obras literárias. "O original é sempre melhor do que as cópias", porque quer que os que ainda não leram e os que já conhecem os textos peguem nos livros e se deliciem como ele. Eu acho que ele quer mais do que isso - claro, quer levar as pessoas ao bom cinema que é o seu, mas é mais - porque no fundo este rapaz de energia imparável é um transmontano amoroso da sua terra, sem pieguices nacionalistas mas com um profundo orgulho do país onde nasceu, com compreensão e carinho. Esse amor é bem evidente na insistência em recordar as palavras de Neil Armstrong ao pisar a Lua em 20 de junho de 1969, não as mais famosas do "pequeno passo para um homem, um grande passo para a humanidade", mas a comparação dos astronautas com os argonautas portugueses do século XVI.

Em julho do ano passado, João Botelho estava em vésperas de partir para o Oriente em busca dos locais onde esperava filmar a Peregrinação que agora está nas salas de cinema. Levava consigo o companheiro dos filmes, o diretor de imagem João Ribeiro, e desse périplo que demorou mais de um mês trouxeram paisagens grandiosas, as mesmas que nos deixam sempre no espanto de imaginar as pequeníssimas e frágeis caravelas no desconhecido imenso.

Ele tem comparsas com quem conta sempre, como o Alexandre Oliveira, produtor, o Cláudio da Silva, ator, mas tem uma capacidade de congregar e entusiasmar muitas e desvairadas gentes (para citar Fernão Lopes e sonhar um pouco com mais uma obra que havia de sair em muito bom estado das mãos do Botelho). Foi pedir a especialistas em navegação e em armas, foi buscar as comunidades japonesa, timorense e chinesa em Portugal. Pegou na obra-prima do Fausto Bordalo Dias, Por Este Rio Acima, e entregou-a a grande músicos que fizeram dela a tal surpresa de que falava no início deste texto.

"Quando às vezes ponho diante dos olhos os muitos e grandes trabalhos e infortúnios que por mim passaram, começados no princípio da minha primeira idade e continuados pela maior parte e melhor tempo da minha vida, acho que com muita razão me posso queixar da ventura, que parece que tomou por particular tenção e empresa sua perseguir-me e maltratar-me." Assim começa o maravilhoso livro Peregrinação.

Não resisto a comparar o próprio Botelho a este Fernão que a cada desventura se atira para nova aventura. A sensação que ele me dá sempre que o vejo é um pouco esta, quando enche de cerejas a casa dos amigos que são família, ou da família que é mais do que amiga. Acho mesmo que sempre que passo pelo Chiado ou pelo Príncipe Real, acabo por me cruzar com ele, ele a caminhar num ritmo ligeiro, ele sentado numa esplanada a conspirar trabalhos com João Queiroz, ele a insistir que obviamente é hora de almoçar e portanto vamos ali à tasca onde lhe conhecem os gostos, ele andando, andando, sempre com pressa de chegar e logo logo com pressa de partir, quilómetros acima e abaixo que culminam em noites dançadas sem perder o fôlego. Ver a Peregrinação dele é também vê-lo assim.

Exclusivos

Premium

Liderança

Jill Ader: "As mulheres são mais propensas a minimizarem-se"

Jill Ader é a nova chairwoman da Egon Zehnder, a primeira mulher no cargo e a única numa grande empresa de busca de talentos e recursos. Tem, por isso, um ponto de vista extraordinário sobre o mundo - líderes, negócios, política e mulheres. Esteve em Portugal para um evento da companhia. E mostrou-o.