A caneta da vacina da varíola agora é uma peça de museu

Héctor Abad Gómez foi assassinado aos 66 anos por um comando de paramilitares, naqueles anos de terror absoluto da Colômbia que liquidaram uma grande parte da geração de pensadores preocupados com a comunidade. Não havia contemplações, se alguém tinha a ousadia de se destacar na defesa dos direitos mais elementares, a morte era ordenada pelo chefe, numa flagrante impunidade. Nesta semana tivemos um exemplo brutal no mesmo continente, com a execução sumária da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, um assustador retorno do Brasil aos tempos dos esquadrões da morte. Num país onde se defende sem freio o regresso à ditadura militar, a morte de Marielle é símbolo do alarme a que temos de estar atentos.

Mas hoje quero falar de Héctor Abad Gómez, porque o regresso do sarampo está diretamente relacionada com tudo aquilo por que o médico colombiano deu a vida. A história dele está narrada comovida e comoventemente pelo filho, o escritor Héctor Abad Faciolince, em Somos o Esquecimento Que Seremos, editado em 2010 pela Quetzal. É um livro que se lê como um abismo, porque sabemos que aquele pai extraordinário vai ser assassinado e sabemos porquê e não podemos conformar-nos. Dirigia-se a uma reunião pelos direitos humanos quando foi morto a tiro na rua, em Medellín, a 25 de agosto de 1987. Um passado tão perto de nós. O testemunho do filho é uma declaração de amor e um aviso magoado. Ter um pai como ele teve foi um privilégio para ele e as irmãs, e a morte dele deixou-nos a todos órfãos.

No tempo em que os animais falavam, quer dizer, quando eu era pequena e algum dos filhos tinha sarampo os meus pais juntavam-nos no mesmo quarto. Era uma economia de escala: já que isto tem mesmo de vir, então que venha tudo ao mesmo tempo. E era uma forma de vacinação empírica, aquela que de resto iluminou os cientistas que perceberam a lógica de inocular o vírus para evitar a doença. Foi assim que fiquei imunizada, sem ter ficado doente.

Havia vacinas, mas para outras situações que nos pareciam pré-históricas. Por exemplo, a da varíola, que o nosso avô, médico, nos aplicava com uma caneta de aparo. Ainda temos as marcas, ora no peito do pé ora no braço, perto do ombro uma história geracional com fim feliz. A erradicação da varíola foi declarada pela Organização Mundial da Saúde em 1980, depois de intensa vacinação que pôs fim a longos séculos mortíferos - no século XVIII chegou a vitimar 400 mil pessoas por ano na Europa. A caneta é uma peça de museu num expositor do Instituto de Medicina Tropical, uma pequena peça aparentemente insignificante que salvou milhões de vidas.

Cumpri com os meus filhos o calendário de vacinas e nunca pus a hipótese de não o fazer. Estou grata às enfermeiras que aproveitaram a minha presença no centro de saúde para me vacinar também a mim - os pais têm esta mania de cumprir as regras dos filhos mas esquecer que o boletim de vacinas deles também precisa de atualização. Se tivesse tido dúvidas, teria bastado recordar a vida de Pasteur, lida com admiração, ou as pessoas da minha geração que tiveram poliomielite.

Podemos imaginar o mundo sem vacinas, e não é bom, é uma coisa no género peste negra na Idade Média. Podemos pensar como é precioso e estranhamente escasso o dinheiro usado para evitar as doenças, em especial em crises humanitárias que deixam sem chão milhões de refugiados. E sempre que alguém próximo nos adoece pensamos: mas quando é que inventam uma vacina para isto? Que bom haver uma vacina para o cancro do colo do útero e para algumas formas de hepatite.

Saber que existem pessoas que põem em causa as próprias vidas e as dos outros por pura negligência ou por um ato consciente de vontade é-me incompreensível. Quando éramos pequenos tínhamos sarampo e não morremos por isso. Pois é, nós passámos entre os pingos da chuva e sobrevivemos ao sarampo sarampelo sete vezes vem ao pelo. Os outros não estão cá para contar. Temos a agradecer a pessoas como Héctor Abad Gómez e tantos outros que tudo fizeram para que houvesse condições básicas de saneamento e planos de vacinação.

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