O sol nasce sempre em Hollywood

Os dias que antecederam a grande noite dos Óscares foram chuvosos, cinzentos, atípicos para este Sul da Califórnia habituado a uma situação quase perene de luz solar. A grande passadeira vermelha desenrolada ao longo da Hollywood Boulevard teve de ser coberta para acautelar um potencial desabar de água, nada compatível com as farpelas de luxo usadas pelas estrelas. Mas o dia amanheceu soalheiro, qual intervenção cósmica para deixar a malta celebrar em paz esta indústria que a todos cansa e fascina.

Nas ruas adjacentes ao passeio das estrelas já não passava ninguém que não estivesse fardado ou levasse uma credencial ao pescoço desde a madrugada. Neste ano houve mais segurança, um sinal dos tempos na América. Talvez pela quantidade absurda de tiroteios, talvez pelo ódio que a massa de apoiantes do presidente Donald Trump diz nutrir pelos "liberais de Hollywood." Mal sabem eles que esta elite de estrelas está longe de viver no oásis de paridade, justiça, inclusão e diversidade racial preconizado por essa esquerda idealista.

Ali perto do Hollywood Center, que desemboca para o Dolby Theatre onde decorreu a cerimónia, havia alguns sem-abrigo a procurar restos pelos caixotes ou a pedir trocos aos transeuntes. Pessoas de aspeto duvidoso convidavam a fazer uma "visita à casa das estrelas." Este jogo duplo de ostentação e miséria é algo a que todos os locais estão habituados. Há as celebridades que vivem nos Hollywood Hills, há os sem--abrigo que vivem nas ruas sujas da baixa, e depois há o resto da turba que aspira a chegar a um destes grupos e a ficar longe do outro.

Atrás das grades que separavam a passadeira vermelha do resto do mundo, havia turistas sentados desde as onze da manhã, preparando-se para esperar várias horas ao sol pela chegada das limusinas trazendo carradas de celebridades. Admita-se, qualquer um de nós, por mais crítico ou frio que seja, colaria os olhos numa Meryl Streep vestida de vermelho ou num Denzel Washington de cabeleira farta. O fascínio que as estrelas exercem pode não ser igual para todos, mas ele existe mesmo nos comentários enojados do Facebook, no escárnio plantado no Instagram, no desdenhar semeado pelas caixas de comentários dos sites de notícias. O erro, que quase apodreceu Hollywood por dentro, foi deixar que o fascínio se sobrepusesse aos requisitos básicos de decência humana.

Foi por isso que esta 90.ª cerimónia dos Óscares, que decorreu sem incidentes técnicos, deixou uma sensação de desorientação. O que é que se esteve para ali a fazer? A celebrar os mais brilhantes da indústria? A mostrar ao mundo que as coisas estão a mudar e que as mulheres vão deixar de ser acessórios de beleza para homens mais velhos? A insinuar que sabem da necessidade de maior diversidade e por isso premiaram mais um realizador mexicano e deram o Óscar de melhor argumento original pela primeira vez a um afro-americano? É que estes apontamentos históricos da cerimónia não tiveram, sabe-se lá porquê, o gosto a vitória que deveriam ter tido. Daniela Vega, a atriz transexual que protagonizou o filme vencedor do Óscar para melhor filme estrangeiro, quase foi corrida do palco ao apresentar a atuação de Sufjan Stevens. Certo, A Fantastic Woman é um filme chileno e muita gente ali não o viu. Talvez nem se tivessem apercebido de quem ela era ou da importância daquele momento. Mas nunca tinha havido uma apresentadora abertamente transexual nos Óscares.

Jordan Peele, o primeiro afro-americano a receber a estatueta para melhor argumento original, aproveitou o momento na ribalta, mas o filme Foge (Get Out) não recebeu o destaque que merecia.

Na verdade, todos os vencedores das principais categorias voltaram a ser os suspeitos do costume, brancos, veteranos, merecedores de deferência mas pouco eficientes para pedradas no charco. Wonder Woman, que bateu recordes de bilheteira e foi aclamado pela crítica, não teve uma única nomeação. Lady Bird, que era considerado um concorrente de peso em várias das cinco categorias para as quais foi nomeado, não levou sequer uma estatueta de amostra para casa. Nenhum filme varreu esta cerimónia dos Óscares, em que A Forma da Água emergiu como vencedor por conquistar dois dos prémios principais: melhor filme e melhor realizador. É um testemunho da enfatuação da Academia por histórias evocativas de um tempo que já foi, uma grandiosidade de eventos sobrenaturais mesclada com histórias de amor impossíveis, atingindo todas as notas necessárias para a aclamação - uma protagonista muda, um homem-peixe com sentimentos, uma melhor amiga negra, o homem de meia-idade gay, um vilão a quem todos querem partir a cara (e aqueles dedos horríveis).

A cerimónia não soube a pouco, até porque foi muito longa, mas faltou--lhe salero. Um retrato apropriado para o momento que se vive na indústria, em que as fortes emoções e os movimentos revolucionários são intervalados por apatia e confusão, para depois regressarem à ebulição. Aqui, em Hollywood, as nuvens são passageiras e o Sol nasce sempre. Talvez daqui a um ano faça brotar outras flores.