Juízo final

Apareceu com um chapéu de cowboy enterrado na cabeça, calças de ganga e luvas de pele, em cima de um cavalo branco e castanho. Roy Moore, juiz candidato a senador pelos Republicanos no Alabama, cavalgou até às urnas desafiante, qual fora-de-lei do faroeste que vinha tomar uma cidade. As sondagens mostravam uma corrida muito próxima com o oponente democrata Doug Jones, algo que até há algumas semanas seria impensável. O Alabama é um dos estados mais Republicanos e conservadores do país. Vermelho até ao tutano, profundamente religioso, draconiano nas políticas de identificação dos eleitores, um Estado onde o lugar de senador só ficou vago porque Jeff Sessions foi escolhido por Donald Trump para procurador-geral dos Estados Unidos.

As horas que se seguiram ao encerramento das urnas foram impróprias para cardíacos. Doug Jones começou bem lançado, com uma ligeira vantagem sobre Roy Moore, mas o juiz passou para a frente e lá se manteve quase até ao fim. "Como?", perguntava-me, ecrãs ligados na CNN, descafeinado a fumegar na mesa, caderno e caneta na mão. Moore era, inequivocamente, o pior candidato que alguma vez se apresentou a votos numa corrida ao Senado, por qualquer um dos partidos. Antes de considerarmos as denúncias de assédio sexual de que foi alvo, olhemos para o perfil deste homem. Removido duas vezes da magistratura por se recusar a cumprir ordens federais e suspeitas de que fez afirmações falsas, Moore apresentou-se com posições ultraconservadoras que desafiam a racionalidade. Por exemplo, disse que a última vez que a América esteve no bom caminho foi na altura em que as famílias eram unidas e tinham um propósito, apesar de haver escravatura. Que a homossexualidade devia ser ilegal. Que o 11 de Setembro foi um trabalho do governo americano. Que as emendas a seguir à décima deviam ser eliminadas, rejeitando o direito de voto das mulheres.

Acrescem as denúncias de comportamentos desviantes quando Moore era um homem feito e andou atrás de raparigas menores. As histórias foram investigadas e bem documentadas pelo The Washington Post; Moore balbuciou que nunca tentou relacionamentos com jovens de 14 anos sem pedir autorização às mães.

Abram-se os céus de espanto, apesar disto tudo o homem ainda estava taco a taco com Doug Jones, cuja reputação é impecável. O debate tornou-se apocalíptico, como se desta eleição dependesse a fibra moral da América. O Alabama seria palco do Juízo Final.

Para os apoiantes de Moore, com forte pendor evangélico, tudo se resumiu aos direitos reprodutivos das mulheres. Os eleitores que votaram em Roy Moore decidiram que era mais importante tentar impor restrições ao aborto do que eleger alguém que segue as leis, vive em 2017 e não em 1850 e não tem apetite por menores. Felizmente, não conseguiram o que queriam. Graças sobretudo aos eleitores afro-americanos, que se galvanizaram a favor de Doug Jones, o resultado foi uma vitória histórica dos Democratas: há 25 anos que não elegiam um senador pelo Alabama. Muitos republicanos suspiraram de alívio, apesar da derrota.

E isto, meus caros, muda tudo. A maioria republicana no Senado fica agora reduzida a 51 contra 49. Bastam dois lugares para virar o controlo de uma das casas legislativas do Congresso, e os democratas estão confiantes de que vão conseguir fazê-lo em 2018, tendo os olhos postos nas corridas do Arizona e do Nevada.

Mais incrível ainda é a confiança que começa a surgir na esquerda de que será possível disputar também a Casa dos Representantes, que tem 435 assentos. Os democratas precisam de ganhar 24 para assumirem o controlo desta casa, e já se fala da possibilidade de ganharem 40 a 50. Sacré bleu, no Texas, escrevem-se editoriais questionando se o lone star state vai virar azul nas eleições intercalares de 2018.

Não é tudo devido à onda anti-Trump, que está a bater recordes de impopularidade. Tem também que ver com a escolha dos candidatos. Reparem nisto: a insurreição que os apoiantes de Trump lideraram foi sobretudo contra o sistema, os políticos estabelecidos, a máquina. O ex-estratega da Casa Branca Steve Bannon afirmou que queria destruir o sistema a partir de dentro. Apoiou Moore por ser um candidato fora das normas, que iria lutar contra o statu quo. O problema é que candidatos que querem fazer implodir a máquina são normalmente extremistas e é difícil vendê-los a uma maioria de eleitores. Há ainda outra questão: se chegarem a ser eleitos, como aconteceu com Donald Trump, depressa vão perceber que é quase impossível fazer o que querem sozinhos, sem negociações (isto da democracia é uma chatice). Os eleitores que votaram em Trump e Moore estavam cansados, queixando-se de que os outros políticos não faziam nada. Então votaram em candidatos que, ao quererem ser uma pedra na engrenagem do sistema, irão impedir que se faça alguma coisa.

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