A desolação das cinzas

A mulher tapava a boca com as mãos, tentando conter as lágrimas, dando passos largos na estrada coberta de lixo. De um lado árvores queimadas, do outro destroços e cinzas. Onde antes havia casas agora há apenas amontoados de metal e tijolo, que mal se veem por causa da nuvem negra de cinza que paira no ar. "Eles têm 85 anos, não sei se conseguem reconstruir a casa", dizia. Um daqueles montes de cinza era a casa dos pais. O desespero desta mulher saía-lhe às golfadas, entre soluços. Allison Detoffoli olhava desolada para a destruição causada pelo fogo. Não ficou pedra sobre pedra.

Arderam mais de seis mil casas nos piores fogos da história da Califórnia, que aconteceram precisamente no mesmo momento em que a vaga de incêndios assolou Portugal neste terrível mês de outubro. Na Califórnia morreram 42 pessoas, em Portugal 43. As imagens monstruosas que me chegavam de Portugal pelos jornais e redes sociais pareciam ser um espelho macabro daquilo que via na CNN e ouvia na rádio NPR. Em português e inglês, o relato da mesma tragédia. A linguagem universal do nojo e do horror. A aflição, a revolta, as perguntas. "Porque é que não nos avisaram?", perguntava uma sobrevivente na rádio, que escapou ao fogo porque recebeu o sms de um amigo durante a noite a avisar que as chamas estavam a caminho. Saiu de casa com o que tinha no corpo, tentando acordar os vizinhos. "Quem não acordou, não sobreviveu", dizia, revelando que não houve sirenes, não houve bombeiros, não houve polícia. A vila onde vivia foi arrasada, tal como tudo à volta. Arderam vinhas, hospitais, casas. Não sobrou nada do hotel Hilton de Sonoma, nem do supermercado Kmart ou do Chateau St. Jean.

Foram retiradas 100 mil pessoas numa emergência sem precedentes. Acudiram mais de dez mil bombeiros da Califórnia e de outros estados, que enviaram corporações para ajudar a combater os fogos, e mesmo assim foram precisos vários dias para controlar todos os incêndios. Não sei se há paralelos que se possam traçar entre a tragédia que ocorreu em Portugal e a que se abateu sobre o Norte da Califórnia, que é mais rural do que o Sul. Não sei se vale a pena comparar. A dor não se mede nem se compara. A dor e a raiva de quem perdeu tudo no fogo são universais.

No rasto das cinzas, os investigadores tentam agora encontrar pistas para explicar o que aconteceu. A zona do Napa Valley onde creem que tudo começou está a ser tratada como a cena de um crime, com guardas e fita amarela à volta. Estão a ser entrevistadas testemunhas e a serem chamados ao local especialistas em metalurgia e vegetação. Vai ser usado software para recriar as áreas como eram antes dos fogos, em busca de uma origem; há imagens de satélite e meios aéreos para ajudar a completar este puzzle.

A maioria dos fogos começou durante a noite, com ventos muitos fortes. Os especialistas desconfiam de que terão sido desencadeados pelo contacto entre a vegetação muito seca - já não chove há mais de seis meses - e linhas e postes de alta tensão geridos pela Pacific Gas and Electric (PG&E). O estado da Califórnia obriga as fornecedoras de eletricidade a manterem a distância de um metro entre as suas linhas e postes e quaisquer ramos de árvore e outra vegetação - algo que a PG&E diz fazer, ao ritmo de 1,2 milhões de árvores cortadas por ano. Não terá sido suficiente? Em fogos anteriores, certamente não foi. A empresa levou uma multa de 8,3 milhões de dólares em abril por causa de um fogo que deflagrou em 2015 e foi causado por uma das suas linhas elétricas, em combinação com vegetação seca. Esse fogo matou duas pessoas e destruiu 549 casas.

A potencial ligação da PG&E a estes fogos ainda mais destrutivos limpou 6 mil milhões de dólares da sua capitalização bolsista. Porta-vozes da empresa defenderam-se falando em "ventos históricos", quase tufões, contra os quais nada nem ninguém podia ter valido. A investigação continua. Os nomes das vítimas são homenageados nos jornais. Conta-se a história da mulher que morreu nos braços do marido, na piscina onde se refugiaram a noite toda, porque os seus pulmões não resistiram à nuvem tóxica que baixou sobre todo o Norte do Estado. Medem-se os níveis nunca vistos de partículas a circular no ar, de Sonoma a São Francisco, que obrigam as pessoas a usarem máscaras sobre o nariz e a boca. Fazem-se as perguntas todas. Não haverá certezas absolutas, mas sabe-se pelo menos isto: o que aconteceu na Califórnia, tal como em Portugal, foi um crime. Haverá que estabelecer de quem.

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