A mania da resistência à mudança

O mundo está em constante mudança e o ser humano até proclama que está sempre a aprender. Mas ao mesmo tempo é um animal de hábitos e por isso resiste à mudança. Será? Não raras vezes somos confrontados com mudanças e acabamos a elogiar um modelo anterior ao qual por ironia começámos por resistir.

Um exemplo: há cerca de um mês mudou o sistema de táxis numa das empresas da capital. Tive a sorte (ou o azar) de apanhar um táxi poucos minutos depois de a mudança ter sido feita. Nos 15 minutos de percurso, o discurso do taxista começou com as críticas a estas mudanças, "desnecessárias" na sua opinião, e acabou com a constatação de que tudo não passa afinal de uma questão de habituação. Afinal, no anterior sistema de transporte tudo também começou com... críticas. O que mais assustava o meu motorista era como iria processar o crédito (modelo de transporte utilizado pelo Diário de Notícias e outros jornais, que permite aos jornalistas passar uma nota de despesa sem pagar no imediato a viagem) quando chegasse ao destino. Mas o próprio acabou por assegurar que iria "desenrascar" a situação.

Diz-nos a ciência que a resistência à mudança por parte dos colaboradores é ainda a principal causa de falha nos processos de mudança. Mas, felizmente, a ciência também nos ensina que é possível criar novos hábitos. Os investigadores garantem que, em média, 66 dias após a mudança o ser humano já integrou a novidade na rotina (embora haja uma janela temporal bastante grande: nos casos mais rápidos pode demorar 18 dias e os mais resistentes 254). Ficou provado nas últimas viagens de táxi que fiz: nenhum dos motoristas se queixou do novo sistema. Parecia até que nunca tinha mudado. Afinal, nem sempre há motivos para olhar a mudança com tanta desconfiança.

Exclusivos

Premium

história

A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.