Carta à jovem que escreveu uma carta ao prof. Marcelo

Cara Maria (se quiser, acrescento o "dra.": a julgar pelos exemplos que chegam das franjas do governo, o título dispensa licenciaturas), soube que escreveu ao Presidente da República. Infelizmente, apanhou-o em Havana, em cordial visita à nomenclatura de psicopatas locais. Felizmente, o conteúdo da carta caiu nas páginas da Visão e facilitou a exposição do drama da Maria ao país inteiro.

Resumindo muito, a Maria conta que "sonhou" (cito) ser médica desde pequenina e que, por causa de umas décimas na nota de candidatura, não conseguiu entrar em nenhuma universidade portuguesa. Por isso, tenta hoje aceder a uma universidade espanhola. Nada de especial. O problema é que, logo de seguida, a Maria salta dos factos para as lamentações.

Pelos vistos, há um "sistema injusto" que a impede de cumprir a ambição académica. Não duvido. Sucede que a responsabilidade pelo dito cabe justamente à corporação dos médicos que a Maria admira: a pretexto da qualidade, a zelosa vigilância do numerus clausus nos cursos em causa trata de regular a quantidade de profissionais e assim preservar o "prestígio" perdido por outras profissões com excesso de oferta e consequente desemprego. Não ficou claro se a ideia da Maria é acabar com selecção tão restrita. Se for, peço-lhe que depois não escreva cartas a queixar-se de que, aliás à semelhança de quase toda a gente, corre o risco de não arranjar trabalho.

Se, pelo contrário, a Maria concorda com o numerus clausus e apenas discorda da avaliação que a rejeitou, aí o caso complica-se. À custa dos salamaleques exibidos pelos papás contemporâneos, percebo que os jovens da geração - e, suponho, do meio social da Maria - cresçam sob a ilusão de que o mundo é um lugar fácil e está ganho à partida. Não é e não está. A verdade é que a Maria se sujeitou a provas e, segundo critérios "exclusivamente científicos" (o desplante!), perdeu para uma data de colegas. "Quem é que avalia o lado humano?", pergunta a Maria. Ninguém, por ser um conceito vago e, em última instância, insusceptível de medição. Se não fosse, também ninguém garante que o "lado humano" da Maria lhe concederia a vaga que procura. Os argumentos que a Maria apresenta para justificar a admissão ("Porque eu quero, porque eu mereço, porque eu preciso") não são especialmente portentosos. Nem compatíveis com a visão, algo ornamentada, que a Maria tem do ofício ("Ser médico é ser-se astuto, perspicaz, responsável, sensato e sensível").

Mas o maior equívoco da Maria prende-se com o patriotismo. Embora continue com hipóteses de estudar medicina em Espanha, a Maria chora ("Por muito difícil que seja, se o meu país não me concede a oportunidade de me formar onde nasci e onde pertenço, vou ter de pertencer a outro lado") a sua eventual saída do nosso "país, lindo, limpo, seguro, organizado". Aparentemente, a Maria imagina-se na Suíça e não tenciono desenganá-la. Limito-me a dizer-lhe que a piedosa curiosidade dos media sobre os compatriotas que abalavam para o estrangeiro em fuga da "austeridade" terminou no momento em que a malvada "direita" cedeu o poder à benévola extrema-esquerda. Além disso, mesmo que na altura os media não o referissem, ir para fora não é uma condenação: com frequência, é uma oportunidade e, dado o actual rumo da pátria, uma bênção, que se calhar lá mais para a frente a Maria agradecerá com fervor.

Entretanto, Maria, dou-lhe um conselho: tenhamos ou não carência de médicos, estamos atafulhados de péssimos retóricos, pelo que não abuse do lirismo, ou do "lado humano" em detrimento do científico. Esqueça o "estetoscópio de plástico amarelo e verde de brincar" e a "mochila cheia de sonhos e vontades e ideias e dedicação". Esqueça, o quanto puder, os sonhos. A lengalenga do "pelo sonho é que vamos" abstém-se de informar que a maioria de nós não vai longe, ou no mínimo não vai onde pensou ir. Por regra, as "vontades", as "ideias" e a "dedicação" cedem aos repetidos confrontos com a realidade. E a realidade não se preocupa com o futuro da Maria. É possível que a Maria venha a ser médica, excelente ou deplorável. Não é impossível que venha a ser farmacêutica, dona de casa, poeta bissexta, beneficiária do RSI ou, se o azar lhe cair em cima, socióloga. Apesar dos esforços paternos em protegê-la, Maria, a existência é uma sucessão de imprevistos.

O engraçado é que, com meros 17 ou 18 anos, a Maria pensa como um português crescido, convencido de que compete ao Estado providenciar-lhe uma vida. Erro seu, minha cara, e dos portugueses crescidos. A solitária competência do Estado consiste em humilhar cidadãos e subtrair-lhes dinheiro. O resto, por cá, em Espanha ou na Quirguízia, é consigo e com o acaso. Perceber esta evidência é alcançar a responsabilidade que a Maria inclui entre as virtudes dos melhores médicos. E das melhores pessoas.

Despeço-me agora, Maria. Faz-se tarde e ainda me falta pedir ajuda ao prof. Marcelo (espero não o apanhar na Coreia do Norte) para realizar o meu sonho de infância: ser astronauta. Por enquanto, só consegui ser colunista. Colunista e hipocondríaco. Até já, doutora.

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