A "vacina"

Neste Outono sombrio, há quem alimente esperanças com a teoria da "vacina". Eis uma súmula: em primeiro lugar, Cavaco aceita contrariado um governo PS com a participação ou o "apoio" dos partidos comunistas. Depois, o governo defende os superiores interesses nacionais (leia-se serve a clientela e espatifa a economia), actua em benefício dos trabalhadores (i.e., saqueia os últimos cêntimos dos que trabalham e pagam impostos), favorece os direitos das pessoas (ou seja, persegue e cala dissidências) e consolida a democracia (por outras palavras, deixa-a em coma). No meio do pandemónio, lá para o Verão o governo cai, Portugal aprende que o marxismo é nocivo e a relevância eleitoral da esquerda, PS incluído, esvazia-se por décadas ou pela eternidade afora. Um consolo, não é? E também uma alucinação pegada.

Na tarde de 11 de Setembro de 2001, sofri um portentoso ataque de ingenuidade e, por momentos, presumi que os atentados nos EUA explicariam enfim ao mundo a legitimidade da resistência de Israel ao terrorismo. Voltei ao normal em dias ou horas, o tempo suficiente para que certo mundo desatasse a "compreender" as dores da "rua" islâmica, a reforçar a repulsa pelos EUA e a redobrar o anti-semitismo, perdão, o anti-sionismo. À semelhança da cegueira ideológica, a má-fé não aprende nada, excepto a evitar a realidade.

Excepto para os viciados em metanfetaminas que a bem do colesterol hesitam em ingerir uma morcela, o arrependimento não é para aqui chamado. Se o país não erradicou o comunismo após os arremedos revolucionários de Cunhal, Otelo e Vasco Gonçalves (por pudor, não falo do rastro de sangue e miséria que a conversão dos povos à felicidade espalhou - e espalha - pela Terra), a que propósito ficaria "vacinado" por causa de novo assalto ao poder, uma pequenina supressão das liberdades e a trivial bancarrota? O razoável PS faliu-nos em três ocasiões e nunca se viu remetido para a obscuridade que merecia. Depressa atribuída aos "mercados", à Sra. Merkel, a Passos Coelho e às conspirações do costume, uma quarta falência não fará grande diferença, e a diferença que fizer custará demasiado.

Além de enganadora nas expectativas, a "vacina" é desaconselhável nos efeitos: no fundo, sugere a resignação de todos os cidadãos que ainda não endoideceram, de Novembro em diante condenados a consentir uma burla e a contemplar um desastre. Embora banhada nas melhores intenções, a ideia da "vacina" acaba por tornar o desastre consolador e a burla tolerável, dois equívocos que pagaremos com juros.

Isto tudo para dizer que Cavaco Silva não deve ceder a chantagens e nomear o Sr. Costa. Pretextos "técnicos" não lhe faltam, desde a inexistência de um acordo de facto (na quinta-feira, o Sr. Jerónimo assumiu o carácter fictício do mesmo) às promessas implícitas e explícitas dos partidos comunistas em remover-nos do Ocidente rumo à balbúrdia exótica que estiver em voga. Mas a verdadeira razão prende-se com a Sagrada Constituição, cujo artigo 120.º informa que o Presidente da República garante "o regular funcionamento das instituições democráticas". A "frente popular" nem ganhou eleições nem é democrática. A "vacina" é a própria doença, está nos livros. E estaremos feitos.

Sexta-feira, 30 de Outubro

Pouco barulho

Vasco Lourenço, presidente de uma Associação 25 de Abril e homem de grande gabarito, quer "iniciativas" em prol da "liberdade" e da "justiça". Sobre a justiça, presumo que a censura dos media da Cofina (e o processo ao Sol) a propósito da divulgação de pormenores do "caso" Sócrates já é um bom princípio. No que respeita à liberdade, a urgência, conforme insinuam o próprio Sr. Lourenço e o inestimável Sr. Nogueira da CGTP, é sabotar qualquer manifestação em defesa do governo na data das moções de rejeição, imprudência que se discute nas "redes sociais" e que os sadios valores de "Abril" naturalmente não admitem. Sinais dos tempos?

Convém ainda notar que os "tempos" nem sequer começaram. Os processos de intimidação em curso são um mero aperitivo do que nos espera quando, e se, a frente golpista chegar a mandar nisto. Para começar, não será fácil usar a expressão "frente golpista" em público - em privado recomenda-se o sussurro. Mesmo enquanto autarca pequenito e candidato burlesco, o Sr. Costa já provou que convive optimamente com as opiniões alheias desde que coincidam com as dele. Erguido a PM, sobretudo um PM de escassa ou nula legitimidade, não custa antecipar até onde irá a proverbial tolerância da criatura.

Para cúmulo, há que somar ao carácter da criatura a vasta tradição democrática dos comunistas de tons sortidos que a patrocinarão na eventual, e festiva, aventura. Tanto o PCP como o BE são agremiações historicamente abertas ao debate, no sentido em que o Templo de Jim Jones era uma agremiação historicamente aberta ao debate. Todos foram coerentes na ausência à tomada de posse de um governo livremente discutido e escolhido nas urnas.

O engraçado, para não dizer trágico, é que andámos 40 anos a ouvir essa gente chamar impunemente "fascista" a tudo o que se movia e agora arriscamo-nos a não poder devolver-lhes o epíteto, enfim utilizado com propriedade.

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Daniel Deusdado

Começar pelas portagens no centro nas cidades

É fácil falar a favor dos "pobres", difícil é mudar os nossos hábitos. Os cidadãos das grandes cidades têm na mão ferramentas simples para mudar este sistema, mas não as usam. Vejamos a seguinte conta: cada euro que um português coloca num transporte público vale por dois. Esse euro diminui o astronómico défice das empresas de transporte público. Esse mesmo euro fica em Portugal e não vai direto para a Arábia Saudita, Rússia ou outro produtor de petróleo - quase todos eles cleptodemocracias.