A revolução de Outubro

"PS vai ganhar pois o povo não é estúpido"

O povo é estúpido pois deu a vitória, há poucas semanas considerada impossível, à coligação. Por acaso, as regiões com maior analfabetismo em Portugal praticamente desenham o mapa da maior influência da esquerda. Mas não estraguemos com factos uma história bonita: a que, de modo a impedir o triunfo dos estúpidos e efusões à "direita", declara o triunfo eleitoral dos partidos derrotados. E nem importa que esses partidos tenham passado a campanha a insultar-se e a berrar o que os distingue. O aroma do poder, o desespero e a irresponsabilidade de alguns doidos varridos fazem milagres pela harmonia.

"António Costa: o conciliador"

Após longa e medíocre carreira, o dr. Costa realizou uma péssima campanha e, sem surpresas, alcançou uma derrota de gabarito. Começam a faltar adjectivos para as atitudes que tomou entretanto. Na noite de Domingo, com notável descaramento, fingiu-se descontraído e responsável para escapar ao cutelo. Mas o avanço das tropas de Seguro fê-lo deslizar num ápice para o regaço dos partidos comunistas, que na peculiar cabecinha dele ajudam ao bluff ou, quem sabe, talvez sejam mesmo plausíveis aliados de governo (a mera hipótese define um carácter). O dr. Costa é o tipo de indivíduo que, se sentir ameaços de enfarte no avião, arromba a porta de emergência a fim de levar todos com ele. Só não é um caso perdido porque, desgraçadamente, continuamos a encontrá-lo. Um homem encurralado é perigoso, um invertebrado nas cordas é o desastre. Haja alguém que lhe abrevie os apetites totalitários, a bem do PS e, sobretudo, do que realmente interessa.

"Catarina Martins foi a figura da campanha"

Uma anedótica entrevista de Catarina Martins a José Gomes Ferreira, na SicN, confirmou que os conhecimentos da senhora se medem com um pacómetro. Não há problema: as exactas pessoas que costumam afligir-se com o crescimento da extrema-direita na Europa são aquelas que saúdam os novos rostos e as velhas ideias do BE. E o respectivo resultado eleitoral, que não chegando aos valores encantatórios do Syriza (o saudoso, o autêntico) e do Podemos, é o bastante para convencer o braço político do Chapitô do direito ao poder. E mais do que o bastante para afligir as pessoas que ainda não deram entrada no manicómio. Ou no Chapitô.

"CDU a crescer"

O PCP venceu as eleições, como aliás sempre acontece. Não sei se quer ser governo ou se finge querer ser governo. Sei que o PCP pode governar um país, mas não pode governar um país democrático.

"A mensagem de Cavaco foi atípica"

Ou clara: Passos Coelho deve formar governo; o governo deve incluir acordos, de tipo a determinar, com o PS; o convite não se estende à extrema-esquerda. A realidade é que não o compreendeu bem. Percebe-se que o PR conta com a sensatez do dr. Costa ou de um PS livre do dr. Costa. Não se percebe o optimismo de ambas as hipóteses. No primeiro caso, o dr. Costa já deu abundantes provas de que, em prol da sua sobrevivência política, é capaz de varrer o euro, a Europa e até o país. No segundo caso, a parte do PS ávida de varrer o dr. Costa tem de assistir ao espectáculo antes de baixar a cortina. A verdade é que o PR preteriu os resultados das "legislativas" em favor de um "consenso" que não existe e nada garante que venha a existir. De caminho, alimentou as ilusões de uma nulidade ressabiada. No combate à instabilidade, o PR arrisca-se a instaurar o caos.

"Há governos europeus que não incluem o partido vencedor das eleições"

Claro que há. Mas nenhum inclui partidos estalinistas ou trotskistas.

"O PS tornou-se o partido de charneira"

Olha que bom. Da sabotagem do "cavaquismo" por Soares, o Pai, à rasteira a Santana de Sampaio, o Virtuoso, passando pelas incursões de Sócrates, o 44, no controlo dos "media", o socialista padrão nunca se distinguiu pela tolerância democrática. No máximo, porém, limitava-se a beliscar o regime. O PS do dr. Costa e de todos os que lá dentro não o enfrentarem arrisca-se a destruir o regime por inteiro, tragédia menor e talvez uma galhofa até descobrirmos o que virá a seguir.

Não se pode ignorar o milhão de portugueses (que votaram na extrema-esquerda)

Ou José Pacheco Pereira estudou tanto o comunismo a ponto de não aprender nada ou detesta Passos Coelho a ponto de aceitar tudo. E os 27 mil que votaram no PNR? E os 12 mil que votaram no PURP? E as 18 alminhas que, na freguesia onde estou inscrito, escolheram o JPP (o partido)? E o meu vizinho que rabiscou três símbolos fálicos no boletim? E os dois milhões que votaram, no que depender de JPP (o pensador) em vão, na força vencedora?

"(A esquerda deve juntar-se para) acabar com esse absurdo a que chamam arco da governação"

Tudo somado, o que por aí se insinua - ou cozinha de facto - é um assalto ao poder. Torcer a Sagrada Constituição até esta expelir um pacto governativo de diversas facções coladas com ganância e ódio é apenas uma trapaça feia. Incluir nas facções adversários confessos da democracia representativa - e orgulhosos herdeiros de genocidas sortidos - já roça o abominável. E o intolerável, no sentido literal de que boa parte do país (incluindo, por exemplo, a vasta parte em que a esquerda "unida" é minoritária) não promete tolerar o arranjo. Se há 40 anos o Verão foi quente, é provável que este Inverno não seja fresco. A alternativa depende do bom senso, leia-se de um milagre.

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Poderá o mundo comportar Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Erdogan na Turquia e Boris no Reino Unido? Sendo esta a semana do facto consumado do Brexit e coincidindo com a conferência do clima da ONU, vale a pena perguntarmos isto mesmo. E nem só por razões socioideológicas e políticas. Ou sobretudo não por estas razões. Por razões simples de simples sobrevivência do nosso planeta a que chamamos terra - porque é isso que é fundamentalmente: a nossa terra. Todos estes líderes são mais ou menos populistas, todos basearam as suas campanhas e posteriores eleições numa visão do mundo completamente conservadora - e, até, retrógrada - do ponto de vista ambiental. E embora isso seja facilmente explicável pelas razões que os levaram à popularidade, é uma das facetas mais perigosas da sua chegada ao poder. Vem tudo no mesmo sentido: a proteção de quem se sente frágil, num mundo irreconhecível, em acelerada e complexa mudança, tempos de um paradigma digital que liberta tarefas braçais, em que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens, em que os jovens podem saber mais do que os mais velhos... e em que nem na meteorologia podemos confiar.

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