O outono da ordem mundial

A nova ordem mundial sonhada pelos fundadores da ONU - orientados por guias ocidentais que não tinham experiência que lhes permitisse antecipar as leituras que dos textos fariam as áreas culturais, libertadas do colonialismo, pela primeira vez falando ao mundo livremente - acabou grande parte em suspenso pela ordem dos pactos militares que vigoraram até à queda do Muro de Berlim. Sem esquecer a obra meritória de algumas das organizações especializadas, destacando a UNESCO por brevidade, a nova ordem, se há alguma, vai primeiro destruindo alguns regionalismos antes de conseguir fazer pressentir no horizonte que novas maneiras de reger o globalismo se tornarão efetivas para um chamado tempo novo, ainda à espera de conteúdo proclamado, aceite e vivido.

Talvez o livro de Svetlava Aleksievitch, recentemente traduzido para português, intitulado O Fim do Homem Soviético possa ajudar a compreender que outros fins poderão estar a germinar, por muito que vozes confiantes no conservadorismo das normas tenham uma presença que não lhes permita ver as erosões. A citada autora, ao ser chamada a explicar a linha da exposição, apoiada no conflito de ideias e de armas, afirma que "isso é devido ao medo. O medo perante a nova realidade que se nos abriu, para a qual não estamos preparados e diante da qual somos impotentes". Do lado ocidental do muro, a União Europeia emergiu da queda da ordem dos pactos militares com uma rapidez de milagre, mas também com um descuido de interventores, que alargaram as adesões sem estudos de governabilidade, imaginaram uma segurança e uma defesa autónomas sem estudos de fronteiras amigas e multiplicaram as estruturas usando uma política furtiva que dispensou os parlamentos nacionais do dever de intervir e os eleitorados múltiplos da informação necessária de escolher. E agora, quando a crise económica e mundial desmente - como fez aos projetos da ONU - os resultados sonhados a que a realidade não prestou atenção, a resposta mais simples às pretensões de mudança, muito pela voz de Berlim, é simplesmente que "as regras são para cumprir". Exatamente o dito, ou entendido sem ser dito, por muitas vozes da ONU, quando pretendiam que "o desenvolvimento sustentado é o novo nome da paz", para nos encontrarmos nesta entrada do século com "guerra em toda a parte".

Os problemas das "pequenas pátrias", em que se incluem a Catalunha, a Escócia, a Flandres e fora da Europa o Québec, desafiam a unidade dos Estados, que imaginaram estar sólidas as coincidências Nação-Estado. Os mitos raciais, em vez de recuarem, crescem com a islamofobia, as dinâmicas islamitas ameaçam a ordem em paz, a erradicação da fome é um voto sem resposta e, sobretudo, as migrações mostram que nas causas está o esquecimento ocidental de não escolher o mal menor, como aconteceu no Afeganistão, no Iraque, na Líbia. Essas emigrações mostram em primeiro lugar que, como em todos os casos, as causas incluem o mau governo, trazendo à complexidade do projeto da União, sem conceito estratégico, o desafio do terrorismo, da falta de resposta da ideologia orçamentista à segurança, do conflito da segurança com os deveres morais e legais do humanitarismo e, finalmente, o medo que vai invadindo as sociedades civis, os eleitorados que se retiram das votações porque vai sendo atingida a relação de confiança com a governança interna e internacional, enquanto a ideologia assimilacionista encontra o obstáculo que Éric Besson colocou em debate em 2009 quando, sendo ministro francês da Imigração, começou a lidar com a ambiguidade da "identidade nacional".

Mas se este não for um tema que caracterize a conjuntura, é certo que a crise, a relação exígua dos recursos de cada Estado com os encargos acrescidos pelas imigrações e necessidades de segurança, fez com que as reações dentro da União sejam diferentes em função das capacidades disponíveis e também do medo que o terrorismo cresça, justamente à medida que, por exemplo, o Estado Islâmico sofre enfraquecimento causado pelas reações dos atingidos.

Tudo isto para lembrar que a unidade europeia é um projeto de séculos e não apenas da eurocracia que domina o que existe, tem fundamento, que admitimos indiscutível, quando se afirma que as regras dos tratados são para cumprir. Mas isso não significa que o primeiro-ministro da Inglaterra cometa um erro quando vai ao Conselho expor o seu pensamento de mudança, nem que as divisões europeias entre ricos e pobres, o outono ocidental que escurece, e assim por diante, não obriguem a recordar que não existem tratados eternos e que os direitos humanos, e a paz que os conserva, não sejam os paradigmas a respeitar.

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