Premium Os grandes erros da história

O conhecido escritor Bill Fawcett, que viu traduzido para português (Clube do Autor, SA) o livro que intitulou Os 100 Grandes Erros da História, fez um agradecimento especial a Tom Colgan por, afirma, "me ter possibilitado o divertimento de escrever este livro". Mas parece logo corrigir quando acrescenta que "a verdadeira dedicatória devesse ser oferecida aos milhões de homens, mulheres, crianças, soldados, aviadores e mesmo animais que pagaram um preço tão elevado pelos erros dos outros desde o começo da nossa história, incluindo talvez uma desculpa aos que virão depois dos erros agora cometidos e que eles algum dia terão de pagar".

Este acrescentamento seria talvez mais eficaz se a referência ao "divertimento" pudesse ter sido eliminada ou substituída, porque o que tem de pedagogia para contrariar a leviandade dos responsáveis políticos ficaria fortalecida. Basta termos de reconhecer que, se o livro fosse escrito hoje, tendo passado apenas uns oito anos, o número da colheita seria muito acrescentado. Sobretudo porque a já antiga afirmação de que o que chamamos "terceiro mundo" considera os ocidentais os maiores agressores dos tempos modernos, e o tempo não chegou para meditar e corrigir, até onde possível, as memórias que incendeiam as suas reações presentes.

Amin Maalouf, um libanês ocidentalizado e que foi redator-chefe da revista Jeune Afrique, escreveu um livro que fez carreira, chamado no original francês - Le Dérèglement du Monde (2009), e tendo sobretudo presente os detalhes e as consequências do conflito entre muçulmanos e ocidentais -, sustenta que, ainda que as emigrações apelem ao valor da piedade e solidariedade - "os especialistas não podem considerar a erosão da legitimidade no mundo árabe como um tema sem importância. Uma das lições do 11 de setembro de 2001 é que na era da globalização não há desajuste que seja meramente local; e quando o que está em causa é a emoção, a perceção de cada um e a vida quotidiana de centenas de milhões de pessoas, os seus efeitos fazem sentir-se em todo o planeta". A evidência de que à ordem proposta e suposta pela organização da paz baseada na ONU, que foi a esperança e a promessa do "nunca mais" acontecerá desastre semelhante ao da Segunda Guerra Mundial, está definitivamente em suspenso, em vista da desordem global e do apagamento progressivo das instâncias criadas com competência e vocação mundial.

Não se trata de negar os avanços da ciência e da técnica, a partir da audácia de Martianus Capella, quando no século V constituiu a base do ensino na Idade Média, com os seus trivium (gramática, retórica, dialética) e quadrivium (aritmética, geometria, astronomia, música), para chegarmos a este século, que nos aconteceu, com Silicon Valley transformado na nova Jerusalém, fascinados pela inteligência artificial e esquecidos do aviso de Tolstoi de que a ciência nos dá a linha da causa das coisas mas não o que fazer. E nesta data a impressão de que um novo erro precisa de ser acrescentado aos cem de Bill Fawcett é que os americanos escolheram um presidente erradamente convencido de que sabe o que deve fazer.

Se os seus últimos procedimentos são inequívocos quanto à desconsideração da União Europeia, à correção contabilística da NATO que nesta data serve principalmente, como elo de segurança, a rede americana militar ao redor da terra, a declarada intenção de procurar a solidariedade da Rússia que os seus serviços nacionais de informação lhe atribuem, e acrescenta, declarando-se um caráter forte, aproximar-se da China, está a construir a suspeita de um subitamente inspirado projeto: submeter a globalização a um direito, com a agenda inspiradora - "America First", ignorando que, salvo o Japão, que é o mais ocidentalizado dos países orientais, está a referir-se a um país, a China, que é uma civilização de milhares de anos, que atravessou várias dinastias e formas de governo sem perder a identidade, e foi chamada por investigadores um Estado-Civilização, o que obriga a considerar com respeito "a sua longevidade histórica e a coincidência entre civilização e Estado. A terceira diz respeito à sua escala" (M. Jacques).

Se a União Europeia diminui de capacidade com a quebra da unidade atlântica, o prognóstico mais credível será talvez que o visível crescimento da China será opositor da "América First" e fator do agravamento do outono ocidental. Com cumplicidade da Rússia, ou sem ela, as eleições presidenciais americanas elevaram os grandes erros da história, anotados por Bill Fawcett, para 101. O tempo não tem contemplação com alegadas perdas, nem as perdas de tempo desculpas ou absolvições.

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