A ONU

Tal como tinha acontecido com a Sociedade das Nações, e depois da guerra marcada pelo uso da bomba atómica, foi assumida pela consciência dos fundadores da ONU a exigência de que um desastre de semelhantes dimensões não viesse a repetir-se. Ambas as organizações foram pensadas e definidas por ocidentais, de acordo com os valores da sua cultura, mas não tendo previsto o consequencialismo da entrada na ONU das regiões libertadas progressivamente da submissão colonial, ou com designações apenas literalmente mais benévolas, e que pela primeira vez, na história da humanidade, falaram ao mundo global em liberdade, apoiadas na especificidade cultural da sua circunstância.

Os ocidentais todavia não esqueceram, ao escrever o texto, toda a longa tradição e prática da hierarquia das potências, e por isso foi com aparente naturalidade que a igualdade dos Estados ficou e convive com o direito de veto reservado a cinco potências, EUA, Rússia, China, França, Inglaterra. Os órgãos foram organizados segundo modelo coletivo - conselhos e Assembleia Geral - mas ficou um órgão individual, o secretário-geral, com igual dignidade segundo a estrutura.

Sem ignorar que ficam exemplos por recordar, parece seguro que o notável secretário-geral Dag Hammarskjöld, morto em serviço na Zâmbia, foi o exemplo mais destacado, pela ação e causa de morte, de assumir essa igual posição e, a partir dela, responsabilidade. Sem esquecer as ações meritórias da ONU, e sobretudo de algumas das organizações especializadas como a UNESCO, foi relativamente breve o período em que, nas palavras de Fukuyama: "Os símbolos do reconhecimento - uma bandeira, um assento nas Nações Unidas ou o estatuto jurídico inerente à pertença à comunidade das nações - são de importância crítica para os nacionalistas." A Ordem Militar dos Pactos ideológicos - NATO e Varsóvia - ultrapassaram o projeto da ONU em importância na ordem mundial, para chegarmos à entrada deste século com a pergunta inquietante de encontrar resposta viável e esperançosa para a questão, já posta em evidência em 2011 por Delphine Placide, de saber se encontraremos maneira de recuperar a ONU, posta por demorado tempo em pousio no que toca aos mais graves problemas da ordem internacional, quando os pactos militares amorteceram, mas as formas de conflito armado se multiplicaram. Enfrenta um passado de blocagem do Conselho de Segurança, pelo veto dos privilegiados, desde 1945, a descolonização implicou que mais de metade dos Estados membros fossem afetados pela crise mundial e não tenham capacidade para enfrentar sequer os desafios da natureza, que crescem de gravidade, como inundações, terramotos, pestes, fome, e "guerra em toda a parte".

Não é que não tenham de recordar-se esforços, muitos tentando responder à exigência de reorganização relacionada com a multiplicação diferenciada de membros, como a Comissão Brundtland (1987) para o desenvolvimento sustentado, a Comissão Nyereve para o desenvolvimento humano, a Comissão Carlsson-Ramphal para a governança mundial, a Comissão Evans-Sahnoun para a responsabilidade de proteger, a Comissão Ogota-Pen para a segurança humana, as intervenções a favor da paz, e assim por diante, tudo a ser útil para a recuperação de uma imagem que tivesse coincidência com o projeto dos fundadores, nesse 1945 de tanta esperança. Teve sempre motivos para invocar limitação de meios (PNUD), salientando-se o projeto, de resultados modestos, de "erradicar a fome e as desigualdades no mundo" até 2015, carências anunciadas e sobretudo imputadas às crises alimentares e energéticas de 2007-2008 e económica a partir de 2008.

Foi de grande importância a intervenção de Obama, no sentido de reconhecer que era necessário desenvolver políticas de empenhamento na ONU, qualificada de "imperfeita mas indispensável". Ora uma das iniciativas necessárias para reabilitar a ONU, tal como acontece na Europa, é a relação transparente com os povos, o conhecimento dela na sua realidade e não pela imagem dos noticiários, ao que correspondeu a complexidade, exigência, publicidade, das provas exigidas aos concorrentes ao único cargo individual, mas de dignidade igual à dos órgãos coletivos, que é o de secretário-geral. Neste concurso, o engenheiro António Guterres destacou-se como o estadista mais encorajado para assumir a tarefa, que inclui, não pode esquecer-se, a reabilitação da ONU. Será mais um dobrar de sinos de finados da ONU a manobra de remeter o processo para uma opção de "instituição espetáculo", a favor de interesses protegidos por negociações ocultas e ilegais. Será então apropriado levar flores ao túmulo de Dag Hammarskjöld.

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