A desglobalização

Talvez possa adotar-se a intervenção do presidente Wilson, na paz da Guerra de 1914-1918, como a afirmação determinante no sentido de que o modelo Estado-Nação seria a referência da organização política ocidental, pondo assim fim aos impérios anteriores à guerra. Não era a realidade e a importância das nações que se descobria, bastando recordar a longa anterioridade da nação portuguesa nesse Ocidente, mas era nova a adoção imperativa do modelo que se impunha como alicerce da nova ordem sonhada.

A viciação do conceito viria da definição ideológica que assumiu a convicção, como resume Barzun, de que "uma nação é uma raça, um grupo que partilha uma ascendência biológica comum. A equiparação da nação à raça desafiou os mais elementares conhecimentos da história. Desde tempos imemoriais, a Europa e a América têm sido cadinhos de miscigenação". Um grupo que ganha essa identidade seria, no pensamento de Wilson, um complexo de terra-povo-soberania.

A evolução da "circunstância mundial" implicou uma crescente interdependência, a qual, nesta época que vivemos, atingiu o desafio do globalismo, que atingiu a definição de soberania. Podemos identificar passos do crescimento do fenómeno, lembrando cooperações assumidas, e até institucionalizadas, baseadas na necessidade de enfrentar ameaças ou projetos, por vezes com afinidades culturais e até étnicas, como foi a Liga Pan-Germânica que visou aglomerar os povos de língua alemã, a Liga Pan-Eslava com critério semelhante, a tentada Aliança das Nações Latinas, ou, mais próximas, as alianças de cada uma das guerras chamadas mundiais, de que subsiste a NATO, animada por um conceito estratégico Atlântico.

Digamos que, como resumiu o lembrado Barzun, o Ocidente teve, como impulso para a unidade, os conceitos de classe, de raça, de nação, de cultura. Todavia, a crescente importância da ciência e da técnica, que instalou a orientação apreendida por Ernest Renan (1948), de que "não é um exagero dizer que a ciência define o futuro da humanidade", e de facto ultrapassaram sucessivamente os próprios modelos de governança mundial que foram a Sociedade das Nações e atualmente a ONU, com as organizações complementares.

A interdependência global, sem plano institucionalizado, desatualizou ou violou os pressupostos éticos e jurídicos em vários domínios, com predomínio por exemplo dos conceitos da economia, alteração da capacidade protetora da soberania, submissão a redes de poder desconhecidas, a ameaça das confrontações militares poderem destruir o globo, a evidência de o ambiente estar gravemente afetado em termos de perigar a vida em todas as formas, a desordem das migrações a recordar que a terra é "a casa comum dos homens", a crescente quebra de autoridade das instituições organizadas para defender a igual dignidade dos Estados.

Tudo evidencia a falta de governança para o globalismo, o que impulsiona os movimentos de "desmundialização", com pregadores como Georges Corm, Jacques Sapir, Walden Bello, Arnaud Monteboug, longamente estudados por Eddy Fougier (Rameses - 2018), evidenciando uma corrente populista que é presumível que afete as eleições da União Europeia, neste 2019 em que o populismo avoluma os apelos ao controlo dos capitais, defende enfrentar as crises económicas abandonando o euro, recuperar as soberanias em vários domínios, avaliar a dimensão válida do atlantismo, medir os efeitos do Brexit do Reino Unido, preservar a unidade em face dos programas dos emergentes, em resumo, olhar para o passado excedido pelo futuro em curso descontrolado. O que mais se desenvolve com uniformidade semântica mas com um pluralismo evidente nos métodos e nos objetivos é encaminhar a época para "a era dos populismos".

A análise corre atrás dos factos, e estes acentuam as formações que visam a desglobalização, com lideranças como a de Marine Le Pen, triunfadores como Trump que chegam ao poder sem nunca ter exercido um cargo público, com o desastre do Brexit, com os coletes amarelos em França desencadeando a crise sem lideranças assumidas, com governos com leituras duvidosas da democracia.

A evidência é, com consciência ou sem ela de todos os populismos, de que a desglobalização esta à mercê de o imprevisto ter uma oportunidade. Com a agravante de entretanto não haver processo de impedir as leviandades consentidas a governantes em exercício, como abandonar o tratado de defesa do ambiente contra o protesto de crianças e o aviso de cientistas, enfraquecer a prevenção contra a proliferação do poder atómico, tratar com displicência a justiça penal internacional, transformando os ideais da ONU numa utopia.

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