"Queremos gerar uma experiência de compra agradável": Slogan da Rede Carrefour no Brasil. A sério?

Você pretende investir no Brasil? Saiba que terá de incluir em seu business plan, técnicas para lidar com o racismo estrutural.

A sociedade brasileira e muitos grupos lá instalados, vivem um faz de conta: eu finjo que não vejo o seu racismo, você finge que não vê o meu.

Assim viveremos felizes para sempre, ou até que um preto "resolva ser morto", atrapalhe essa retórica e nos obrigue a lidar com a terrível verdade de que o brasileiro é racista. A pergunta que se deveria fazer a cada comprovação desse fato é: qual o caminho que devemos seguir como sociedade de agora em diante? Mas há sempre algo mais importante a ser decidido na empresa, como a estratégia de inbound marketing para a Black Friday, por exemplo. Depois vem o Natal, o Carnaval e etc.

Muitos daqueles que não se assumem racista dizem: "tenho amigos pretos", ou "contratei funcionários pretos em minha empresa". É um faz de conta, sem limites. Não percebem que o racismo está tanto nessas frases, quanto em atitudes de agentes de segurança que pressupõem ser um preto, uma ameaça potencial que mereça atenção, simplesmente por ser preto. Minha filha viveu essa experiência ao lado de um amigo.

Minha mulher e eu somos brancos - embora essa afirmação dependa muito de quem nos vê. Para Donald Trump e seus quase 74 milhões de eleitores, por exemplo, somos latinos. Brancos são apenas eles. Entretanto, até alguns portugueses se veem mais brancos do que nós - como pudemos ler, em outubro passado, nos muros da Escola Secundária da Portela: "Portugal é branco! Zucas, voltem para as favelas". É muita genética envolvida, herdamos a cor e o racismo.

Fernanda, uma de nossas filhas, é branca, segundo consta em seu registro de nascimento. Estuda em um dos melhores cursos preparatórios para ingresso na faculdade de medicina - um curso caro, majoritariamente frequentado por brancos. Um colega de curso é preto e, diferentemente dos demais que estão sempre vestidos de maneira despojada, o rapaz se veste impecavelmente bem - o que eu relato a seguir, talvez explique essa preocupação com a aparência. A instituição onde eles passam o dia inteiro a estudar se localiza numa das regiões mais nobres da cidade de São Paulo, onde o grupo de amigos costuma almoçar em restaurantes próximos.

Numa dessas saídas, Fernanda e seu amigo preto, foram a um centro comercial na famosa Avenida Paulista. Ela ficou incomodada ao reparar que um segurança os observava sem disfarçar. "Primeiro eu achei que era comigo, que se tratava de algum tipo de assédio", relembra, "depois percebi que o segurança olhava insistentemente para mim e, mais ainda, para o meu amigo sem que eu percebesse o motivo". A dupla passou pelo segurança que não tirava os olhos. No regresso, o rapaz tinha uma sacola com algo que comprou. "O segurança foi em nossa direção a tentar olhar o que meu amigo estava a carregar, e nos seguiu durante uma parte do percurso." Fernanda nunca havia passado por tal situação e comentou com o amigo: "Esse segurança esta a nos seguir ou é impressão minha?", o garoto respondeu: "Ah, você reparou? Fique tranquila, já estou acostumado".

Não! Não é para ficar tranquilo nem acostumado. O nome disso é racismo estrutural. Um garoto preto, num centro comercial onde é suposto que só brancos estejam a fazer compras "em segurança", representa um risco potencial a ser observado. Certamente foi o que imaginou o agente de segurança treinado para isso. Fernanda ficou furiosa ao sentir parte do que vivenciam os pretos em ambientes de classe média no Brasil. Ela não se esquece desse dia. Sentiu raiva, sentiu-se ofendida e disse que se ela se sentiu assim, nem imagina o que sentem os pretos que passam por isso todos os dias. Como pai, espero que ela jamais se esqueça desse sentimento.

Mas no Brasil do faz de conta, racismo não existe. O vice-presidente do Brasil, general do exército, Hamilton Mourão, concorda com essa afirmação. Para ele não existe racismo no país, isso é coisa dos EUA. Já seu chefe, o presidente Jair Bolsonaro, afirmou que há problemas mais sérios para se resolver do que o racismo. Ele aproveitou a reunião do G20 - que pela primeira vez se deu virtualmente -, para discursar contra manifestações ocorridas após a violenta morte de um homem preto, brutalmente assassinado em uma loja de supermercado em Porto Alegre - uma das cidades mais provincianas, da região mais provinciana do Brasil, o Rio Grande do Sul. Mas o crime poderia ter tido lugar em São Paulo, Rio de Janeiro ou Recife. Há racistas suficientes espalhados pelo país.

Bolsonaro expressou seu raciocínio obtuso a líderes de diversas agências internacionais que participavam do encontro. Alguns dos ouvintes já sabiam a que ele se referia, outros ainda haveriam de saber, todos ficaram incomodados. Entretanto, como escreveu o Barão de Itararé - famoso escritor/humorista do cenário político brasileiro no início de 1900: "de onde menos se espera, é de lá que não vem nada mesmo". Bolsonaro deu mais uma demonstração de que por mais que se possa esperar algo ruim, esqueça, ele vai conseguir piorar.

Sem formação, inculto e, consequentemente, incapaz de perceber as nuances daquilo que representa - e do resultado daquilo que sai de sua boca -, o presidente brasileiro diz coisas com o propósito de criar narrativas para subverter a lógica dos fatos e tornar tudo um absurdo viável. Como no mundo de Alice, onde coelho fala, baralho dança e uma lagarta azul, que fuma narguilé, faz a pergunta insistente que Bolsonaro não seria capaz de responder: quem é você? Ele convence seus seguidores de que estamos no caminho certo. Sempre aplaudido por uma claque rasa que espera respostas a temas complexos em não mais que 140 caracteres. O atual presidente do Brasil é a segunda maior fonte de vergonha do país. Só perde mesmo para o racismo.

Entretanto, enquanto Bolsonaro é uma vergonha que pulsa, o que não pulsa mais é o coração de João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, que estava com a esposa no check-out de uma loja da rede Carrefour e foi brutalmente assassinado momentos depois - por conta de algum desentendimento quando tenta acertar um soco em um dos agentes de segurança que o acompanhava em direção ao estacionamento, cuja motivação ainda não foi esclarecida. De seguida o que se viu foi uma cena de barbárie intensa com os dois agentes a agredi-lo de maneira violenta em seu rosto. O piso ensanguentado, a raiva sem limites, até que, após uma sequência interminável de golpes - acompanhados de pedidos de socorro à mulher, que foi impedida de o ajudar -, Freitas é rendido e, tal como George Floyd, asfixiado contra o chão pelo peso de dois seguranças sobre seu tórax. Freitas, que era preto, morreu ali, sem ar. Foi uma execução sumária. Algumas pessoas passaram a defender que Freitas não foi morto por ser preto, mas pelo fato de ter reagido violentamente à abordagem. Mas se Freitas fosse um loiro, teria sido abordado e levado ao estacionamento? Provavelmente não.

A cena foi tão abominável, que virou manchete no mundo todo. Da rede Al Jazeera aos telejornais do Japão e de Portugal, todos noticiaram e se espantaram com a violência extrema na ação. Indignada, uma parcela da sociedade brasileira composta, sobretudo, por jovens cujo pensamento vai de encontro ao discurso dos líderes da nação, se manifestou em diversas cidades. Em São Paulo, chegaram a depredar uma loja da rede Carrefour, quebraram vidraças de uma montra e acabaram por atingir dois carros de clientes. A ordem durante a ação era "não saquear". Não levaram uma única bolacha. Mas deixaram as marcas de seu protesto.

Era tudo o que a direita racista precisava para relativizar o crime - como se fosse possível tirar o valor absoluto que um assassinato carrega. São racistas do faz de conta. Muitos não percebem que são, porque o racismo estrutural não é visível, é subliminar, essas pessoas cresceram assim, foram criadas em lares racistas, cidades racistas, supermercados racistas, escolas racistas, igrejas racistas. Faz parte do cotidiano nos autocarros, nos comboios, no ambiente de trabalho, na agência bancária, na praça de alimentação de centros comerciais, no restaurante, nas rodas de amigos. É assim, e já está.

Na emissora líder de audiência no país, os manifestantes que quebraram a montra da loja do Carrefour foram chamados de "vândalos" por seu principal âncora. Os narradores diziam coisas como: "os atos violentos ocorridos após o assassinato", numa clara inversão de valores. O certo seria dizer que "o ato violento que causou o assassinato" gerou reações numa parte da sociedade que não tolera mais essas atitudes covardes. Se minha filha estivesse lá a quebrar a montra, eu a entenderia. Caso ações violentas não tivessem vindo a cabo, o caso não passaria de mais uma ocorrência policial a envolver um preto. A sociedade só se mobiliza quando seu modus operandi sofre ameaça, é preciso agredir o sistema para que seja readequado e se fortaleça lá adiante. A sociedade civil só teve avanços após manifestações radicais.

O Carrefour tem culpa sim. Correu para contratar uma empresa de gestão de crise, e só faz anunciar seu repúdio à violência ocorrida. Neste domingo, 22, postou um vídeo onde o CEO Noel Prioux pede desculpas e diz acertadamente que "a extensão do ocorrido vai além da minha compreensão como homem branco e privilegiado que sou". Mas, no mesmo vídeo, o VP de Recursos Humanos, João Senise, diz que o que aconteceu não representa quem são, nem os valores da empresa, afinal "57% dos nossos colaboradores são negras e negros". Essa afirmação apenas comprova que eles estão no Brasil, cuja população, segundo o IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, é composta por 54% de pretos. Alguém precisa explicar ao Sr. Senise que maioria loira ele encontra na Escandinávia. O VP de RH não é burro, mas mostrou-se dissimulado. Ele ainda diz que "1/3 dos gestores se autodeclaram pretos ou pardos". Pardos? Não existe mais isso. Ou é preto, ou branco. Pardo seria um ton sur ton? Um cimbalino com leite? Ou seria um preto que não assume sua cor por preconceito? É conversa de racista, e ponto final.

No dia 14 de agosto deste ano, Moisés dos Santos, 53 anos, promotor de vendas da loja em Recife, sofreu um ataque cardíaco e morreu enquanto trabalhava, no corredor das bebidas. O que se espera de uma situação dessa é que, em respeito à vítima, a operação seja suspensa até que tudo possa ser resolvido. Não foi o que aconteceu. A direção da loja mandou cobrir o corpo do funcionário com alguns guarda-chuvas abertos, como se fosse uma barraca de praia, fizeram algumas barreiras com caixas de bebidas, e mantiveram o funcionamento normal. O corpo ficou das 8h às 12h em exposição enquanto os clientes desviavam, até a chegada da perícia - que o retirou para deleite da loja que não parou por uma bobagem qualquer. Esses são os valores aos quais o VP se refere? É a banalização da morte.

Em outro caso que merece ser lembrado, na loja de Osasco, em São Paulo, seguranças agrediram o técnico em eletrónica, Januário Alves de Santana, 39 anos. Santana, outro preto, foi agredido ao tentar "roubar um carro" no estacionamento da loja. Os agentes de segurança agiram com violência a evitar o roubo. O detalhe é que ele era o proprietário do veículo. Ahh... esses pretos sempre a nos assustar!

Ainda na região de São Paulo, em outubro de 2018, funcionários da loja de São Bernardo do Campo agrediram violentamente Luís Carlos Gomes, por ter aberto uma lata de cerveja dentro da loja. Mesmo a insistir que pagaria pelo produto, foi perseguido pelo gerente e um segurança que o empurraram para a casa de banho, lá dentro Gomes recebeu vários golpes. Ele sofreu fraturas e necessitou de cirurgia. Como sequela, ficou com uma perna mais curta do que a outra. À altura, o Carrefour soltou a velha nota de sempre, reutilizada nesta semana, a afirmar que "repudia veementemente qualquer tipo de violência, e reforça que realiza treinamentos e reorienta suas equipes e blá-blá-blá".

O povo não pode ser condescendente com essas ações criminosas. Os racistas de plantão já fazem circular nas redes sociais, áudios a acusar Freitas - o cliente espancado até a morte em Porto Alegre -, de ser uma pessoa violenta. De facto, Freitas tem passagem pela polícia com acusação de agressão doméstica e outra por ameaça. Mas até onde se sabe, os seguranças do Carrefour não têm o poder de julgar e executar sumariamente os clientes por eventuais delitos cometidos dentro ou fora do estabelecimento.

O Brasil é um país maravilhoso, mas se esforça diariamente para pegar o caminho errado com essa mentalidade racista e preguiçosa. Por isso encontra respostas duras para dúvidas rasas, mal elaboradas. Como Alice, no País das Maravilhas, quando encontra o gato na encruzilhada e pergunta qual caminho seguir. O gato diz: "Depende para onde você quer ir". Alice responde, "tanto faz". E o gato completa: "Então qualquer caminho serve". Que medo.

Paulo Cardoso de Almeida é jornalista e designer brasileiro.

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