Opinião DN

A necessidade das férias judiciais

No passado dia 16 de julho, data de início das férias judiciais, o Diário de Notícias publicou uma notícia, referindo que magistrados e funcionários defendem o fim das férias judiciais, citando declarações dos seus representantes sindicais afirmando que estas "verdadeiramente não são necessárias". Estranha-se que o jornal não se tenha preocupado em ouvir a posição dos advogados, para quem a extinção das férias judiciais seria altamente prejudicial. Na verdade, os tribunais são compostos não apenas por juízes, procuradores e funcionários, mas também por advogados, sem os quais a justiça não pode ser administrada. É por isso manifesto que um artigo a questionar a justificação das férias judiciais que não ouve os advogados transmite uma visão parcial da realidade.

Luís Menezes Leitão

Portugal visto pelos olhos dos outros

Estava em plena mata atlântica perto de Ilhéus, em Salvador da Bahia. Depois de dias a ler e a espreguiçar num resort, decidi explorar as zonas em redor com um grupo de turistas. Às tantas comecei uma conversa com um casal de argentinos. Ele médico, ela professora. Conversa agradável, que passou pelo deus Maradona, o tango, o fado e o vinho. Falei do Porto e aí a conversa sofreu uma reviravolta. O homem argentino afirmou, sublinhou e teimou a pés juntos que o vinho do porto era chileno e não português. Fiquei incrédulo. Retorqui e discuti e mesmo assim ele ficou na dúvida. E admito, a conversa ficou por ali.

Filipe Gil

Uma costureira, um sexólogo e a nossa generosidade

Numa redação de colegas doutos e experientes, eu, jovem jornalista, fui atirada às feras. Enviada ao Porto para cobrir um congresso de sexologia - tema apelativo mas sem especialistas ou voluntários para o tratar -, cheguei à estação de São Bento muito em cima da hora. Quando tudo podia correr mal, com um frio de rachar, do meu casacão caiu o único botão que impedia o vento gélido de me enregelar. Corri para a Baixa e entrei numa retrosaria esbaforida. Contei a minha desgraça à empregada de balcão e pedi um carro de linhas e uma agulha.

Paula Sá

Não se excitem

Frank Schwalba-Hoth foi brevemente deputado ao Parlamento Europeu, pelos Verdes alemães, em meados dos anos 80. Terminado o seu meio mandato (à época eles faziam uma rotação a cada dois anos e meio), nunca mais se foi embora de Bruxelas. É consultor, organizador de eventos, especialista em relações com a Ásia central e, sobretudo, provavelmente o maior networker da cidade. Cabelos brancos, barba desarrumada, gestos exagerados e uma bicicleta que consegue fazer entrar nos lugares mais improváveis, apesar de não ter telemóvel conhece quase toda a gente, e quase toda a gente sabe quem ele é. Se há um europeu de Bruxelas, é ele.

Henrique Burnay

A crise e os populismos violentos

A complexidade, de racionalização extremamente difícil, a que a desordem do Brexit conduziu a questão de saber se a Europa acaba no canal, e se, na sequência do possível não acordo, o Reino Unido terá de enfrentar algumas consequências resultantes de não ser um Estado nacional, tudo se reflete na imprevisibilidade dos resultados das passadas eleições europeias, quer o Reino Unido participasse sem significado nelas quer estivesse já ausente.

Adriano Moreira

Livres e iguais

Fugi sempre das generalizações, talvez porque nunca me tenha sentido protegido por nenhuma. Convoco a ideia de proteção porque há nas generalizações, no seu sentido gregário, um pressentimento de ataque, como se a integração em algo maior, numa multidão, nos salvasse. Houve tempos em que procurei essas multidões, camuflando-me até ficar invisível. Mas foi um esforço inglório, porque convivem em mim, e na minha vida, tantas intuições contraditórias, tantos pressentimentos conflituantes, que nunca encontrei conforto em nenhuma generalização: havia sempre algo a mais, ou a menos, nessas multidões, e a minha presença foi sempre intermitente, como quem alterna uma corrida com passo lento, como quem não se aclimata em mudança de estação, ora puxando o lençol para cima ora afastando-o com vigor sem adormecer.

Adolfo Mesquita Nunes

Bem-vindos à outra metade da humanidade

Estávamos quase no final da votação da presidência da Subcomissão de Direitos Humanos no Parlamento Europeu quando, num tom provatório, um colega da extrema-direita pediu que a votação fosse suspensa, perguntando: "Onde é que está a igualdade de género?" Nesta semana todas as comissões parlamentares elegeram as suas lideranças. O facto que deu azo à ansiedade do colega de extrema-direita foi a eleição de quatro mulheres quando já só faltava eleger um lugar, que viria a ser preenchido por um homem. Este não é um episódio nem caricato nem vazio.

Marisa Matias

Racismo, novas respostas

"Quando se nasce, não se nasce racista." Não há novidade nesta frase - a autoria destas palavras até já se perdeu no tempo (pessoalmente, desconheço-a). Combater o racismo, a xenofobia e a discriminação étnico-racial também não é novo. Todos conhecemos os slogans e as campanhas apelativas contra o racismo que sublinhavam a realidade da diversidade e ilustravam a sensibilização para o respeito pela diferença. Sabemos todos, também, que a luta não se esgotou aí e que as políticas de ação a nível institucional, a nível do corpo legislativo e do ensino/formação e não só, nos têm norteado no sentido da inclusão.

Maria Antónia de Almeida Santos

Conta-me como costumavam contar o que já foi contado

Desbravando corajosamente o denso emaranhado semântico que envolve o "pós-modernismo" (um termo cuja definição começou por variar de disciplina para disciplina, e que acabou a variar de pessoa para pessoa), Umberto Eco reduziu-o a uma "atitude", que descreveu do seguinte modo: "Um homem que ama uma mulher culta sabe que não lhe pode dizer "Amo-te loucamente", pois sabe que ela sabe (e sabe que ela sabe que ele sabe) que a expressão já foi usada em livros de Barbara Cartland. A solução é dizer-lhe "Como diria uma personagem de Barbara Cartland, eu amo-te loucamente". Tendo evitado a falsa inocência, e admitido que essas declarações já não são possíveis, conseguiu todavia dizer o que queria dizer à mulher: que a ama loucamente, num mundo que deixou de ser inocente."

Rogério Casanova

Na montra

O meu otorrino disse-me que tenho ouvidos de surfista e perguntou-me se praticava (ou tinha praticado) a modalidade; embora lhe tenha respondido que não, calculo que a maneira de ser dos meus ouvidos se deva à circunstância de eu ter passado muitas férias com a cabeça debaixo de água (no mar ou na piscina) e de ter dado incontáveis mergulhos de pranchas. Lá em casa até se contava que, tinha eu 7 ou 8 anos, assustei a sério a mãe de uma amiga (que resolvera celebrar os anos na piscina do demolido Hotel Estoril-Sol) ao subir tranquilamente à prancha dos dez metros (que era a mais alta) e chamar toda a gente lá de cima apenas um segundo antes de saltar. A senhora ficou sem pinga de sangue, antevendo uma tragédia mais do que certa e perguntando-se como daria a triste notícia à minha família. E eu lembro-me de que a altura da prancha, para alguém que media apenas 1,20 m, impunha efectivamente respeito, mas pensar em descer dezenas de degraus, ainda por cima molhados, era bastante mais assustador.

Maria do Rosário Pedreira

A direita e os impostos

Abriu a corrida à descida dos impostos. Primeiro o PSD depois o CDS vieram propor que o Estado português abdique de receitas superiores a três mil milhões de euros. Não é surpreendente: a redução da "carga fiscal" tem sido uma bandeira distintiva das direitas. Mas há três problemas. Primeiro, PSD e CDS foram responsáveis há apenas seis anos pelo maior aumento de impostos de que há registo - e não foi por acaso. Segundo, a diminuição das receitas fiscais que propõem tornaria mais difícil resolver os problemas que PSD e CDS acusam o governo de ter descurado. Terceiro, quando se defende uma medida política convém justificá-la - e a justificação que apresentam é menos válida do que pode parecer.

Ricardo Paes Mamede

A fuga do mundo

O que é que pode existir de comum entre um presidente norte-americano que num discurso oficial do 4 de Julho afirma que em 1775 as milícias do general Washington conquistaram os "aeroportos" às tropas coloniais inglesas e um ex-responsável da NASA que no vulcão dos Capelinhos busca um lugar de treino para uma futura missão tripulada a Marte? Ou ainda, qual a semelhança entre os economistas portugueses que identificaram a baixa natalidade como o maior problema nacional e os investigadores de gerontologia anunciando, com orgulho, estarmos próximos do prolongamento da esperança de vida para os 120 anos? Todos estes casos partilham os valores da mesma cultura que hoje é verdadeiramente global: a cultura da fuga do mundo. A atual fuga ao mundo já não é protagonizada por eremitas que saem das cidades para viverem numa floresta, ou no alto de um penhasco, fazendo jejum e voto de silêncio. A nova fuga ao mundo, de que o eclipse da racionalidade política é o facto decisivo, ocorre dentro do mundo como realidade física, contudo destruindo voluntariamente, dentro da própria consciência individual, a ideia de mundo como habitação comum e frágil, de que todos os humanos dependem e todos devem cuidar, apesar das suas diferenças. Hannah Arendt pensou o início desse fenómeno, que hoje atinge uma expressão patológica, provavelmente sem remissão. O modo como hoje, em espaços públicos como o metro, todos nos deixamos transportar para as nossas microesferas privadas através dos telemóveis, usados como um portal para fora do espaço comum, é uma caricatura gráfica desta nova modalidade de negar o mundo, através da sua pulverização em mónadas imaginárias. Se não tivéssemos desistido da ideia de que todas as nossas vidas devem submeter-se aos deveres do mundo comum, tal como todos os passageiros de um avião se devem submeter, independentemente dos motivos da sua viagem, às normas de segurança da aeronave, estaríamos hoje - Estados, empresas, cidadãos - mobilizados pela tarefa absolutamente prioritária de combater os danos letais no ambiente e clima que continuamos a infligir à segurança da nossa única habitação cósmica: este planeta deslumbrante em que o único erro de casting parece termos sido nós. Preocupamo-nos retoricamente com isso, mas em primeiro lugar segue a agenda das nossas vidinhas. O eleitorado nos EUA não fez por menos: escolheu um megalómano alucinado para garantir que a agonia planetária não interfira nos negócios da plutocracia reinante. Os sonhadores de Marte, os preocupados com a demografia portuguesa, os vendedores de velhices infinitas seguem felizes nas suas carreiras. Se não tivessem riscado o mundo real do seu horizonte, perceberiam que nada disso será possível ou relevante num futuro que se mede em escassas décadas. Quando a máscara da ilusão cair, o mundo que é de todos e que não tem santuários regressará na enxurrada de um ecossistema em caótica turbulência, varrendo instituições e substituindo a lei e a ordem pela grosseira seleção darwinista. Realista e brutal.

Viriato Soromenho-Marques

E se Portugal fosse a Amazónia que precisamos salvar?

Não por acaso um dos títulos mais belos e estranhos - Que farei quando tudo arde? - é de um escritor português, Lobo Antunes, e se o livro não é sobre a floresta, o contexto psicológico em que o título aparece tem muito do Portugal de final do século XX e anos seguintes, em que tudo começou literalmente a arder, de forma galopante, chegando-se ao ano de 2003 em que uma onda de calor impiedosa alastrou a morte pelas pessoas e natureza. Nesse ano arderam 225 mil hectares de floresta e dois anos depois um novo pico estatístico: 170 mil. Desde aí nada ficou igual. Ficamos ainda mais subjugados a esta realidade de um abandono da terra, da sua entrega à exploração mais fácil e selvagem, e à rendição coletiva de conforto em que "o país" representasse algo mais do que uma ideia, uma língua e um discurso social emanado a partir das cidades. Proveta e ruído. Critério editorial e opinião. Muito disto tem lideranças que vogam entre garagens e garagens, carros de ar condicionados e pisos alcatifados, a uma distância face ao mundo que só ligeiros sobressaltos de tragédias geram precários espantos. Exemplo: 2017, o novo recorde em todas as frentes - 250 mil hectares de floresta ardida e todas as vítimas civis que conhecemos, não apenas bombeiros (porque esses já eram apenas danos colaterais frutos do erro humano e falta de formação...).

Daniel Deusdado

Esta música não soa bem com aquela pessoa

- Isso não soa bem. Podes escolher outra? - Escolher outra quê? Outra música? - Sim. Escolhe outra. - Mas para que é que eu vou escolher outra? É essa. A minha canção preferida do George Michael é o Faith. Qual é a questão? - Esta não pode ser. Não soa bem. Quer dizer. Não te soa bem. Não. Não soa bem para ti. Não é uma boa canção para ti, pronto. Não te assenta bem. - Mas não é uma boa canção para mim porquê? É a minha canção preferida dele. Qual é o teu problema? Mas agora mandas nas canções de que eu gosto? - Ele tem tantas. Escolhe outra. Olha aquela com as modelos boazonas, o Freedom! Isso é uma grande canção. Ou o Jesus to a Child. Ou o Careless Whisper. - Mas tu estás parvo? Qual é o problema desta canção? A escolha é minha, não é tua. Perguntaste-me qual é a minha canção preferida do George Michael. E eu respondo: é o Faith. Se não gostas dela, paciência. - Não, não, eu gosto muito. É uma música do caraças. - Então??!!!! Hello??!!! O que é que se passa? Porque é que não posso escolher esta? - É que essa é a canção preferida da Cláudia. - Qual Cláudia? A tua Cláudia? - Ela não é a minha Cláudia. É a minha ex-Cláudia. Quer dizer, é a ex-minha Cláudia. Já não somos casados. - Eu sei que não são casados. És casado comigo, lembras-te? Casámos ao som do Barry White. E abrimos a pista do copo-de-água com o Never Can Tell do Chuck Berry. Lembras-te disso ou essas canções também te fazem lembrar a tua ex-mulher? Diz-me agora, não me digas só quando eu morrer ou no dia em que nos divorciarmos. - Nós não nos vamos divorciar. - Se houver mais alguma música de que eu goste e que tu digas que te faz lembrar a tua ex-mulher, garanto-te que nos divorciamos. - Não é isso. Não é que me faça lembrar a Cláudia. Mas é a canção do George Michael de que ela mais gosta. E a ela assenta bem. Ou melhor, ela escolheu primeiro. E na minha cabeça... - A tua cabeça daqui a bocado leva com um CD porque me está a irritar? - As pessoas têm canções próprias. Cada pessoa tem a sua. Ou várias. E aquela é dela e associo-a a ela. Desculpa. Não posso associar a ti também. - Isso é um problema teu. E é uma estupidez. - Sabes qual é a minha canção preferida? - A Canção de Embalar, do Zeca Afonso. - Pronto. Agora imagina que essa era a canção preferida de um ex-namorado teu. Ou do teu ex-marido. - E é. É a canção de embalar preferida do João. Ele cantava-a muitas vezes para adormecer o miúdo. - Qual miúdo? O Pedro? - Sim, o Pedro. O meu filho. O teu enteado. - Mas eu punha essa canção para adormecer a Matilde. - Sim. E eu adorava isso. Os meus filhos adormeciam os dois ao som do Zeca. É bonito. - Mas os teus dois maridos preferiam esta canção? - Eu não tenho dois maridos. Tive um, agora tenho outro. E sim, gostavam os dois da canção. E adormeceram os filhos ao som dessa canção. De que gostam os dois. E então? - Então?! Como então?! Não pode ser. Isso é errado. - Tu estás um melómano sentimental. Aliás, tu estás é parvo, a verdade é essa. - Não podemos ter a mesma canção. Não posso ter a mesma canção do teu ex-marido. Devias ter-me dito. Cada pessoa tem a sua canção. Não podemos ter a mesma. A Cláudia tem o Faith. A Filipa, com quem namorei na faculdade, tinha o Billy Jean, do Michael Jackson. E a Andreia gostava da Canção do Engate, do Variações. Cada namorada, cada canção. - Esta conversa acaba aqui. - Olha, e o I Want Your Sex, do George Michael? Também é gira. Não queres trocar? Vá lá. - Esta conversa acabou. Se voltas a falar nas canções da Cláudia, da Andreia ou da Filipa, atiro a tua aparelhagem pela janela.

Paulo Farinha