O islão não é um papão, mas...

François Reynaert afirma em entrevista que hoje publicamos no DN não acreditar na inevitabilidade de um choque de civilizações entre o islão e o Ocidente. O jornalista francês, que depois de ter publicado uma história do mundo árabe se aventurou agora numa ainda mais ambiciosa Grande História do Mundo, não desvaloriza o terrorismo islamita, que esse sim "odeia o Ocidente e os seus valores como está demonstrado pelos numerosos atentados", mas recusa ver os 1500 milhões de muçulmanos no mundo como inimigos. E acrescenta, para tranquilizar as almas mais alarmadas pelas teses de Samuel Huntington, que de qualquer forma "nenhum país muçulmano é suficientemente forte para entrar num embate frontal com o Ocidente".

Também chama a atenção o francês para o gravíssimo conflito interno que assola o islão, dividido como nunca entre sunitas e xiitas. Trata-se de uma cisão que vem do século VII, poucas décadas depois da morte de Maomé, com a defesa dos filhos de Ali e Fátima como legítimos sucessores do profeta a ser assumida pelos xiitas, hoje um décimo dos muçulmanos. É pois um conflito velho de 1400 anos, o que não impediu que houvesse épocas e territórios de convivência pacífica, mas que agora ressurge com nova dinâmica através da rivalidade entre a Arábia Saudita e o Irão. Habituados nos últimos anos a defrontarem-se por procuração - as célebres proxy wars na Síria, no Iraque ou no Iémen - a monarquia saudita e o regime dos ayatollahs alimentam uma hostilidade que a qualquer momento pode degenerar em algo muito perigoso; até porque os Estados Unidos, e à sua maneira Israel, não deixam de tomar partido nessa disputa e obviamente em favor do rei Salman e do filho Mohammed bin Salman.

Há quem, como o vice-ministro italiano dos Negócios Estrangeiros, Mario Giro, uma figura da Comunidade de Santo Egídio, fale de uma crise do islão. Como defendeu também numa entrevista ao DN, "não estamos a viver um choque de civilizações. Estamos a assistir a um choque dentro de uma civilização. Existe uma crise no mundo islâmico. É uma crise que começou há mais de 20 anos e que, com certeza, afeta também a nossa civilização. Até porque somos a civilização mais próxima da civilização islâmica". Esta última frase vale tanto no sentido geográfico como no cultural, por muito que surpreenda.

No passado, os efeitos do conflito no Médio Oriente faziam-se sentir na Europa através do aumento do preço do petróleo ou do terrorismo. Hoje também chegam sob a forma de vagas de refugiados que se por um lado despertam sentimentos de solidariedade por outro também servem para agitar fantasmas e reforçar politicamente aqueles que, alheios ao inverno demográfico, acreditam numa Europa pura e transformada em fortaleza.

Não devemos, pois, ter um medo irracional do islão. Não é nenhum papão. Mas devemos estar preocupados com a tal crise no islão, que mata lá e cá. No ano passado, os 22 mortos em Manchester ficaram na memória como o pior atentado terrorista na Europa Ocidental desde 2015, mas se olharmos para os dez mais mortíferos ataques com marca islamita em 2017, sempre com mais de cem mortos, todos foram em países muçulmanos, esse gigantesco arco que vai de Marrocos à Indonésia.

Exclusivos