O incomparável

Andava eu há poucos anos nestas coisas do jornalismo, transformado em repórter parlamentar, e comecei a interessar-me pelo debate à volta do Orçamento do Estado. Um dia julguei ter descoberto uma grande notícia, com a descida do orçamento da Saúde face ao executado nesse ano. Estava no poder Cavaco Silva e eu fui ter com um deputado da oposição para trabalhar a notícia. Fiquei desconsolado. Esse deputado, do PCP, em vez de aproveitar para atacar o governo, tirou-me o tapete. "Então você quer comparar batatas com melões ou peixe com carne?", perguntou-me, dando-me de imediato a resposta: "Só pode comparar o que é comparável. O executado com o executado e o orçamentado com o orçamentado."

Ficou-me para a vida. Até esta semana. De repente, dei comigo a ler gente por quem tenho grande consideração, como o jornalista Paulo Ferreira, a alinhar na velha discussão sobre alhos que comparam com bugalhos. Esta discussão é tão ridícula e a memória tão curta, que já ninguém se lembra que em fevereiro deste ano o PSD fez exatamente a mesma acusação a Tiago Brandão Rodrigues. Carregou na tecla para dizer que o orçamento da Educação descia em vez de subir. Comparavam os 5925 milhões executados em 2015 com os 5843 milhões orçamentados para 2016. E agora, que a estimativa de execução para este ano é de 6192 milhões, ainda podem dizer que desceu? Não! Só que se agarram a esse número (6192) para voltar a manipular o debate, acusando o governo de manipular os números, já que o orçamentado para 2017 é 6023.

Não sabendo ninguém qual será o executado em 2017, sabemos todos que, há muitos anos, o executado é superior ao orçamentado. Podemos fazer de conta que não vemos a repetição do número político, mas sabemos que esta discussão é igualzinha à que houve há nove meses. O tempo certo de gestação para ressuscitar um debate que julgávamos morto.

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