Novatos ao poder

Um dos títulos do Le Monde no dia a seguir à segunda volta das legislativas era ""Une cohorte de novices fait son entrée au Palais-Bourbon". Traduzindo para português entender, nunca tanta gente inexperiente se sentou no Parlamento francês. Três quartos dos 577 deputados são novos, a grande maioria oriundos do La République en Marche!, partido criado pelo presidente Emmanuel Macron, mas em alguns casos também eleitos por outras forças, dos comunistas à extrema-direita.
Uma mudança tão dramática num Parlamento como este em França, com um partido centrista fundado há um ano a ganhar a maioria absoluta, é um abanão na política europeia, mesmo que haja alguns casos comparáveis: estou a lembrar-me das eleições italianas de 1994, com a emergência da Força Itália, de Silvio Berlusconi, ou das duas legislativas gregas de 2012, que mostraram o Syriza a substituir no centro-esquerda os socialistas do Pasok. Também se pode falar das eleições italianas de 2013, com a entrada em força no Parlamento de Roma do Movimento Cinco Estrelas.
Quando se critica tanto a profissionalização da classe política e a perpetuação de certos grupos de interesses, sempre em detrimento do cidadão comum, esta renovação drástica dos parlamentares franceses, com mais jovens e mais mulheres, tem de ser bem acolhida. Mas é preciso também ter em conta que existem riscos e que a soma de matemáticos, empresários de startups e agricultores biológicos (uma simplificação extrema da bancada macronista) pode não dar o melhor dos grupos parlamentares. Veremos.
Ora, isto significa que a França, que acaba também de eleger um presidente que nunca antes tinha sido submetido ao teste do voto, está hoje a caminho de se tornar um laboratório político da Europa. E que o sucesso da fórmula macronista, validado nas urnas, ainda está por comprovar na governação.
A inexperiência dos deputados, sobretudo na bancada da maioria, garante que novas e inesperadas estrelas despertarão, mas também dará oportunidade de ver o o que vale o desempenho dos veteranos, como Marine Le Pen (nova no Parlamento mas experiente eurodeputada) ou Jean-Luc Mélenchon (que já foi ministro). Ambos hostis ao macronisno, Le Pen e Mélenchon continuarão a insistir, cada um à sua maneira, numa França diferente daquela que a novata maioria presidencial centrista propõe.

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