Ver para crer? Nunca mais

O momento a partir do qual iremos viver na dúvida sobre a veracidade de toda e qualquer imagem em movimento - filme ou vídeo - está muito mais próximo do que imaginamos. O debate em semiótica, à roda de imagens produzidas por computador - paisagens que parecem "reais" mas que não existem no mundo real -, começou há décadas, mas vai mudar, dramatizar-se e alargar-se a outras áreas.

Já há uns meses que o passatempo de alguns geeks, trocando mensagens nas profundezas da rede social Reddit, era conhecido. A ferramenta existia - trata-se de uma aplicação de desktop que recorre a inteligência artificial e machine learning -, foi criada por um utilizador conhecido como deepfakes e até agora tinha sido usada para "colar" caras de celebridades - atrizes e estrelas pop - ao corpo de outras atrizes em filmes pornográficos. Os especialistas mais céticos ocuparam-se a notar pequenas falhas nos vídeos, pormenores que denunciavam a falsificação. Insistiam que seria impossível a um programador isolado, desconhecido, atingir a perfeição de algumas produções de Hollywood que custaram milhões de dólares e muitas horas de trabalho.

Um dos exemplos a que recorriam era uma cena do episódio Rogue One da saga Star Wars (2016), uma cena em que foi recriada, por computador, uma princesa Leia (a atriz Carrie Fisher, falecida no ano passado) jovem e com o aspeto do primeiro filme da série. Ora, deepfakes aceitou o desafio, pegou nessa cena e fez melhor do que a Disney. Sem gastar um cêntimo, a princesa Leia dele é mais credível e muito mais fiel à Carrie Fisher de 21 anos do Star Wars original. E atenção, por muito mais credível entenda-se "não se consegue ver a diferença".

Já estão preocupados? Não? Então pensem o que esta tecnologia pode significar nas mãos das grandes empresas tecnológicas, de governos ou grupos de comunicação social menos escrupulosos. Imaginem o que é viver na incerteza total acerca do que nos é dado a ver como sendo real. A atual legislação está a anos-luz de conseguir lidar com as consequências desta tecnologia, sendo que os filmes pornográficos com estrelas pop e atrizes famosas serão, aposto, o menor dos males.

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A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.