Querido, mudei a cerca (ao paiol)

O gabinete do ministro da Defesa enviou ao DN um esclarecimento a propósito da manchete de ontem, Autorização para obra na vedação de Tancos demorou 73 dias. À parte a correção de pormenor nas datas, importa fixarmo-nos no último parágrafo. Aí revela-se muito mais do que uma simples correção de datas. É dito que "o despacho em causa (...) não resulta de nenhuma questão de segurança da infraestrutura; diz respeito estrito a um ato administrativo de autorização de procedimento contratual". Conclui-se, portanto, que ao ler as palavras "cerca", "paiol" e "reparação" todas juntas, num documento do Exército, não passou pela cabeça do ministro - ou de alguém do seu gabinete - questionar as chefias militares sobre as condições de segurança daquele perímetro. Ainda não sabemos ao certo, mas aposto que nos dirão, mais dia menos dia, que a decisão de inscrever a instalação de um novo sistema de videovigilância dos Paióis Nacionais de Tancos na Lei de Programação Militar para 2018 - já passariam três anos sobre a decisão de desligar o sistema porque estava obsoleto - também foi encarada pelo ministro da Defesa como "estrito ato administrativo". Havemos de concluir que as palavras "circuito fechado de videovigilância", "inoperacional" e "paiol", todas juntas num documento das chefias do Exército, não fizeram soar qualquer alarme na tutela.

Não foi uma "questão de segurança"? A sério?! Mas senhor ministro, que outra razão haveria para o Exército querer uma cerca nova ou instalar um circuito vídeo naquelas instalações? Ter uma vedação mais bonita e de uma cor que combinasse melhor com o mato por cortar dentro do perímetro dos paióis? Passar a ter câmaras mais modernas, a cores e alta definição, para ver ao detalhe a nova cerca? Acaso os pedidos que lhe chegaram à secretária foram para construir canteiros de flores ou fazer melhoramentos na messe dos oficiais? São uns frívolos e vaidosos, estes tipos do Exército...

Por estes dias há já uma cerca em construção. É uma vedação narrativa à roda de Azeredo Lopes, tentando isolá-lo de responsabilidades políticas por decisões que conduziram ao assalto e fazendo-nos crer que todas elas foram meramente operacionais. Lamento, mas como ficou abundantemente demonstrado pela cadeia de eventos que levou ao assalto a um paiol com armamento pesado, não chega ter um burocrata ou um escriturário no Ministério da Defesa. É uma pasta demasiado importante para que lhe pegue alguém sem o mínimo de sensibilidade para as questões de... Defesa.

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