Pode Ser Diferente?

Sim, parece que sim. Rui Rio assumiu a liderança do PSD com um discurso forte, corajoso e pouco habitual nestes momentos de abertura de congressos partidários. Para lá da clarificação da noite - "o bloco central não existe nem existirá" -, o novo líder cumpriu o guião que melhor responde aos seus principais desafios neste arranque de liderança: afirmação da liderança, diferenciação ideológica e programática em relação à anterior direção e ao PS e a necessidade de unir o partido em torno do novo projeto.

O guião só surpreendeu quem não tenha ouvido nada do que Rui Rio andou a dizer pelo país desde que saiu da Câmara Municipal do Porto ou quem esteja demasiado habituado aos tradicionais discursos de abertura de congressos partidários. É curioso que o novo presidente do PSD tenha começado por dizer que não pretende "sobressaltos ideológicos nem ruturas desnecessárias", o que descansou boa parte da plateia, para passados alguns segundos dizer que "nada deve condicionar a melhor decisão por Portugal" e lançar a ideia de que nenhum dos "estrangulamentos estruturais do país" pode ser resolvido por um partido isolado. Pontes com o PS, sim claro - sempre que o país precisar. O aplauso foi frio, o que demonstra que sim, isto é uma rutura com o PSD de Passos Coelho, queira Rio assumi-la ou não.

Depois, foi muito interessante ver as reações dos congressistas quando Rui Rio trouxe para o palco do congresso os seus temas fetiche - reforma do sistema político-partidário, tendo feito críticas nada meigas a alguns vícios internos; reforma do sistema de justiça, com frases que provocaram olhares incomodados nas primeiras filas da plateia, sobretudo quando afirmou que não é aceitável haver julgamentos na praça pública; e a rejeição clara de populismos ou extremismos, uma mensagem clara para uma certa direita inorgânica que orbitou o PSD nos anos Passos, vivendo na opinião publicada o sonho de tomar de assalto o partido com uma agenda ultraconservadora, que nada tem que ver com a matriz social-democrata do PSD. Rui Rio não veio para fazer ruturas? Não me parece que essa esperança do passismo se confirme.

Esta aposta nos temas de regime, nas grandes questões e reformas de longo prazo, foi uma outra aposta inteligente no guião do novo líder. É esse o campo de jogo que resta a Rui Rio no confronto com o PS, pelo menos enquanto os indicadores fundamentais da economia estiverem com bom comportamento. E, outra vantagem, se conseguir levar o PS a jogo nestes temas, tem fortes possibilidades de expor algumas limitações menos óbvias dos acordos dos socialistas com Bloco de Esquerda, PCP e Verdes, criando dificuldades a António Costa.

Da noite de ontem sobra uma última pergunta: ao certo, o que ganharam Passos, Rio ou o PSD com a originalidade de um discurso de despedida do ex-líder a abrir o congresso? Pedro foi a palco descrever o PSD como ele o vê, como o moldou nos últimos oito anos - bastante mais à direita do que alguma vez esteve -, e as diferenças para o PSD de Rio ficaram claras mal o novo líder começou a falar. E depois ficou absolutamente transparente a inconsequência de um discurso de alguém que passou dois anos e pouco na oposição, amargo e contrariado, com o pin de primeiro-ministro agarrado à lapela e que só agora, no último dia de trabalho, se lembrou de ser... líder da oposição. Teria Passos a ilusão de que poderia condicionar o discurso e a agenda do senhor que se seguiu? Se era essa a ideia, como parece ser a de Maria Luís Albuquerque, hoje, na entrevista TSF/Dinheiro Vivo ao insistir que o PSD deve anunciar já o chumbo a um Orçamento do Estado que está a meses de distância, era perfeitamente escusado e, parece-me, sobretudo inútil.

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