Pedrógão e um segredo inútil

Não se entende o secretismo imposto pela Comissão Nacional de Proteção de Dados ao “capítulo 6” do relatório da comissão técnica independente que investigou os incêndios de Pedrógão Grande - os fogos florestais de junho e as 65 mortes. E não entendo porque, não querendo saber quem é quem entre as vítimas, não querendo conhecer nomes, moradas ou histórias familiares, preciso (precisamos) de saber como aconteceram todas e cada uma das mortes.

É essencial que se conheçam, que sejam tornados públicos todos os detalhes que levaram a cada uma das mortes. Não se trata de um exercício de voyeurismo gratuito, mas antes uma necessidade de conhecimento para que todos, enquanto comunidade, possamos refletir sobre o que de errado, de muito errado, se passou naquelas horas do dia 17 de junho.

É o mínimo que se pode pedir ao Estado. O choque das 65 mortes levou a uma decisão inédita - entregar a uma equipa de académicos o estudo das causas e efeitos de uma série de incêndios florestais, com consequências pesadas. Ora, tendo havido um trabalho de meses de uma equipa de 13 investigadores, é vital que todas as conclusões relevantes sejam conhecidas.

Foi-nos prometido que o relatório serviria de base a mudanças de política, seja na prevenção ou no combate aos incêndios seja na óbvia urgência de alterar a forma como é gerido o espaço rural e florestal no interior do país. Para o que aqui interessa, este “capítulo 6” será uma ferramenta essencial para desenhar novas regras de comportamento das populações perante o fogo. Mais do que o apuramento de responsabilidades - e haverá certamente conclusões incómodas para muito boa gente nestas 96 páginas -, o que verdadeiramente interessa no trabalho da equipa coordenada por Xavier Viegas é que aquele estudo possa ser aproveitado para alterar práticas e políticas instituídas. Seja da proteção civil, dos bombeiros, dos serviços florestais, das autarquias, do Estado central, das forças de segurança ou das populações. Afinal, de que serve ter pedido à equipa de Xavier Viegas um estudo sobre o que se passou em Pedrógão naqueles dias de junho se depois as conclusões mais relevantes são fechadas numa gaveta? Admitindo que o governo vai usar aquele pedaço do relatório para alterar políticas, como poderemos avaliar essas opções se não conhecemos toda a verdade?

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