O regresso de V. e a falta de memória

O ano de 2015 começava com "vivas" à corajosa Grécia e ao governo de Tsipras e Varoufakis, que ousava levantar a voz a Bruxelas e bater o pé aos países que, em troca dos milhares de milhões desembolsados para ajudar a levantar Estados membros falidos, queriam, imagine-se, garantir que as contas eram postas em ordem e que recuperariam o dinheiro dos seus contribuintes. Mas o verão mal tinha começado e já a Europa do Sul se mostrava de ombros caídos, desiludida. Ainda se aguentou o cachecol de marca porque, afinal, tinha mais de uma década; resistiu-se à produção na Paris Match na varanda com vista para a Acrópole (bolas, o homem tem direito ao seu conforto...). Mas menos de seis meses depois de se anunciar o salvador e de convencer, sob ameaça de demissão, o povo grego a votar contra os planos da troika, o ministro das Finanças popstar saía. Não porque os gregos não tivessem cumprido, mas porque sim, porque "sem ele era mais fácil a Tsipras negociar o resgate" - sem o qual, afinal de contas, a Grécia não podia mesmo sobreviver.

Desde então, Varoufakis não voltou a pôr os pés na universidade. Corrijo: nas aulas. Descobriu uma fórmula melhor de vender ideias. Nos livros, que se tornam best-sellers quase sem passar pelas prateleiras; em palestras e conferências pelas quais, naturalmente, cobra (a alguns viagem e estada, a outros uma dezena de milhares de euros, conforme consta da lista que o próprio publicou para acabar com os rumores de que andava a enriquecer à conta da crise grega), que a vida não está para ações de voluntariado. O tempo andou e Atenas foi recuperando, penosamente, graças a sacrifícios de que tivemos pouco eco, ao contrário da época em que fazia manchetes. Fez uma aproximação tímida aos mercados e falhou. Voltou atrás, renegociou com credores, pôs reformas a andar, apertou parafusos e a máquina rangeu e gemeu mas tornou a andar.

No entanto a vida política tem um apelo inegável e Varoufakis, farto de saltitar entre os nenúfares da sua própria sabedoria, começou a desenhar o futuro. Ei-lo agora, dois anos após fundar o "movimento político de esquerda", pronto a transformá-lo em partido - e, logicamente, a contar para isso com ajuda do seu povo, que sempre lhe foi fiel. Qualquer eurito que possam dispensar contribuirá para o ajudar a chegar aos pretendidos 93 mil euros necessários para fazer o site, pagar a publicidade, organizar um grande evento de lançamento e, claro, montar a tournée de Varoufakis&Cia. pela Grécia. Uma pechincha!

O ministro popstar que se esgotou em cinco meses voltou. E mesmo a tempo de ver Atenas regressar aos mercados, ao fim de oito anos.

Exclusivos