O Presidente popular

A eleição de Marcelo Rebelo de Sousa não foi surpresa, o seu mandato está a ser. Não pelo estilo, mas pelo impacto da sua popularidade. Por causa de Marcelo, por causa do seu estilo, por causa da sua popularidade, muitos portugueses reconciliaram-se com a política. Fora da corte de Lisboa, onde gasto parte significativa do meu tempo, o que me dizem os portugueses com quem contacto é que em Marcelo acreditam, em Marcelo confiam, em Marcelo depositam o seu destino coletivo.

Mesmo nos seus tiques populistas, como num 10 de Junho em que se atira às elites em defesa do povo, Marcelo cumpre a tarefa de impedir o avanço de populismos perigosos contra os políticos, contra os partidos, contra as instituições. O Presidente fala em nome do povo, percebe o povo e defende os seus interesses.

Dois anos depois da posse, recordo o momento em que o encontrei na rua, a pé, dirigindo-se à Assembleia da República para assumir em definitivo o seu papel de Presidente: "Sorriso aberto, feliz e disponível para quem o interpelava. Condutores, passageiros dos autocarros, trabalhadores de uma carrinha de construção, gente a circular nos passeios, gente feliz por ver o Presidente na rua e poder cumprimentá-lo."

Marcelo manteve-se igual a si próprio para poder fazer diferente. É certo que tira partido da sua popularidade para a fazer crescer, mas também é verdade que assume as suas responsabilidades enfrentando as claques partidárias para dizer em cada momento o que entende ser melhor para o país.

Tive a oportunidade e a felicidade de lhe fazer uma grande entrevista depois dos incêndios de Pedrógão e do assalto ao quartel de Tancos. Numa altura em que o seu eleitorado natural o acusava de levar o governo ao colo, Marcelo não esteve de modas: "Alguns eleitores de centro--direita desejaram a dissolução e desiludiram." Não poupou o governo e sobre os incêndios exigiu: " Se há responsabilidades, tem de haver responsáveis." Temos Presidente!

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Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

Enquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.