No mar também se falava italiano

Foi um italiano que ajudou fundar a Marinha Portuguesa na Idade Média, relembrou o presidente Sergio Mattarella num jantar no Palácio da Ajuda. Com o anfitrião Marcelo Rebelo de Sousa sentado a seu lado, o presidente italiano destacava assim a antiguidade das relações entre os dois países, e isto sem contarmos a herança romana comum. Por coincidência, estão espalhados por Lisboa cartazes alusivos aos 700 anos da criação da Marinha, com um desfile de navios no Tejo marcado para dia 12. Ou seja, no início da nossa epopeia naval esteve Manuel Pessanha (em italiano Passagno ou Pessagno), um genovês que D. Dinis nomeou como primeiro almirante-mor do reino.

Claro que já antes Portugal combatia no mar. Por exemplo, D. Fuas Roupinho bateu ao largo do cabo Espichel uma armada moura em 1180, reinava ainda D. Afonso Henriques (sobre esta e outras batalhas, como a de Diu em 1509 e a de Matapão em 1717 ler Grandes Batalhas Navais Portuguesas, de José António Rodrigues Pereira). Mas foi com D. Dinis, o mesmo rei que mandou plantar o pinhal de Leiria para consolidar dunas e fornecer madeira para os navios, que nasceu a Marinha que viria a destacar-se nos Descobrimentos, chegando a dominar o Índico de uma forma tão completa no século XVI que só é comparável ao controlo hoje pelos porta-aviões americanos (algumas bases até são as mesmas, como o Bahrein).

Ao serviço de Portugal destacaram-se navegadores de família italiana como Alvise de Cadamosto, António de Noli ou Bartolomeu Perestrelo. A maioria provinha de Génova e ajudou ao processo que, com a chegada de Vasco da Gama à Índia, pôs em causa a prosperidade de outra cidade italiana, Veneza, desviando as especiarias. Não foi aí que a Sereníssima desapareceu - foi preciso Napoleão -, mas a verdade é que a República de Veneza nunca mais foi a mesma depois de as caravelas chegarem a Calecute.

Mas voltemos à Itália, cuja reunificação só se concluiu com a tomada de Roma em 1870. O longo período de fragmentação afastou-a como país das Descobertas, sobretudo quando Portugal e Espanha dividiam o mundo em Tordesilhas, mas a título individual os italianos destacaram-se. Lanzarote, nas Canárias, deve o nome a um tal Lancelotto; Cristóvão Colombo servia os Reis Católicos, mas nasceu em Génova; o florentino Américo Vespúcio, que trabalhou para D. Manuel I, acabou por dar nome ao Novo Mundo; e Caboto, na Marinha inglesa, e Verrazzano, na francesa, andaram pela América do Norte.

Mattarella, que ontem foi doutorado honoris causa no Porto, homenageou na véspera as relações bilaterais e a glória dos marinheiros. Pois, aproveitando ter cá estado, que se faça menção também do brilhantismo italiano nos mares.

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