Maus sinais que se repetem

Nunca foi tão barato pedir dinheiro ao banco para comprar casa. Parece um slogan para incentivar mais famílias a procurar crédito à habitação, mas esta simples frase devia antes soar como um aviso à navegação, passado tão pouco tempo sobre os anos da crise e da troika, do desemprego e do desespero de tantos portugueses. E no entanto, parece que sofremos de um caso de fraca memória coletiva.

Com os bancos em concorrência aberta desde que começou a notar-se alguma retoma nos bolsos dos portugueses, o valor dos juros cobrados pelas instituições tem renovado recordes cada vez mais baixos nos últimos três anos. O que, a juntar aos prolongados mínimos históricos das Euribor, tem ajudado muitas famílias a pôr os acontecimentos recentes para trás das costas - mais concretamente os dramas a que todos assistimos nesta mesma década - e a tornar a encher os bolsos com dívidas que, em muitos casos, durarão até ao fim da vida. Para piorar as coisas, isto acontece numa altura em que o mercado imobiliário está em alta - só no ano passado, os preços por metro quadrado subiram mais de 12%, um aumento como não se via há um quarto de século - dando gás aos preços sem garantias reais de que a fasquia se manterá ou até subirá.

A recuperação do mercado imobiliário é uma boa notícia para a economia, como o é - por muito que custe a quem anda em busca de casa - a subida de preços depois de quase uma década de fraca procura e subvalorização. Mas se uma fatia significativa deste movimento vem de quem encontrou no imobiliário uma alternativa para investir as poupanças, os números começam a assustar: desde 2015, o novo crédito concedido triplicou, somando 634 milhões de euros em janeiro deste ano. Com a Europa regressada de uma crise que deixou muitos países debaixo de água, é uma questão de tempo até as Euribor retomarem força e voltarem a descolar do chão. O que fará subir os juros, mais cedo do que tarde, levando até as prestações mais aceitáveis a engordar e tornando a ameaçar a estabilidade financeira de muitas famílias. Não é agoiro, é a realidade que nos espera se não pusermos rapidamente o pé no travão.

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