Geringonçando

A máquina está suficientemente bem oleada para que pouco mais oiçamos, em público, do que um ou outro arrufo sem grande significado. O trabalho publicado hoje no DN, assinado por João Pedro Henriques, dá-nos uma visão global de como funcionam, ministério a ministério, área a área, os acordos entre PS, Bloco, PCP e Verdes.

Hoje colamos nomes e rostos a esse esforço contínuo de concertação de posições políticas. Não é algo a que a política portuguesa estivesse habituada, pelo menos não nesta escala e entre partidos com posições tão afastadas em áreas-chave como a Europa ou a política de defesa, mas o diabo é que a coisa está a funcionar.

Já lá vão dois Orçamentos aprovados sem grande sobressalto, mais de um ano de governação sem qualquer ameaça séria à sobrevivência política do governo, mas há uma sombra que subsiste. É a mesma para o país e para a geringonça e, em boa verdade, pouco ou nada depende da vontade de socialistas, bloquistas, comunistas ou verdes. Continuamos descontraidamente estendidos, de pés esticados sobre uma mesa, em cima da bomba-relógio da dívida.

Por muitas voltas que Costa e Centeno deem, por muito lustro que consigam puxar ao défice público, o facto é que o ratio da dívida em relação ao PIB tem aumentado. É uma espécie de bola de ferro, pesadíssima, amarrada às pernas. Às do governo e às nossas. O serviço da dívida há de continuar a condicionar o crescimento da economia e a criação de emprego, o investimento e a confiança dos mercados. Teremos sempre o santo Draghi em quem confiar, mas nem um BCE hiperativo pode garantir, para lá de qualquer dúvida, uma travessia tranquila de 2017.

Outro ponto. A zona euro continua desenhada como uma voraz máquina de divergência, e ninguém parece decidido a corrigir esse erro de projeto. Cada fibra de um eleitor alemão médio diz-lhe que deve continuar no mesmo rumo, poupando e contribuindo para um país que é um sucesso competitivo sem paralelo na Europa. Pouco lhe interessa, a ele e a Frau Merkel - sobretudo em ano de eleições -, se os excedentes comerciais e orçamentais estão a desequilibrar a união monetária. E o mais dramático é que nem sequer podemos criticá-los. Afinal, são decisões absolutamente racionais.

Conclusão? Disfarcemos nós o que disfarçarmos aqui, entre portas, num jogo a quatro no Parlamento e à volta dele, entre PS, Bloco, PCP e Verdes, pouco mais nos resta do que rezar para que tudo corra bem, para que 2017 não nos traga nenhuma inquietação.

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?