Garantir saúde a 500 milhões

Narendra Modi costuma ter má imprensa, pelo menos fora da Índia. Durante mais de uma década, qualquer artigo que elogiasse o seu desempenho económico como ministro-chefe do Gujarate não deixava de falar dos confrontos entre hindus e muçulmanos em 2002 em que morreram mil pessoas. Mesmo hoje, a etiqueta de nacionalista hindu do partido do primeiro-ministro tem leituras diversas, a mais benigna a ser a defesa da grandeza da Índia e o espírito tolerante da religião maioritária, que permitiu que ao longo dos séculos prosperassem também muçulmanos, cristãos, sikhs, budistas, parsis e outros; a menos benigna é a que fala de intolerância com as minorias, sobretudo a islâmica, e a alimentá-la estão declarações e ações de figuras menores do partido, como o tal deputado que se dedicou a denegrir o Taj Mahal.

E não é só a imprensa estrangeira que ataca com insistência Modi. Quem leu o último livro de Arundhati Roy, intitulado O Ministério da Felicidade Suprema, talvez tenha percebido como a escritora indiana, vencedora em 1997 do Booker com o seu O Deus das Pequenas Coisas, usa a ficção para criticar o atual primeiro-ministro, vencedor das eleições gerais de 2014.

Pois bem, Modi acaba de anunciar uma medida que merece tremendos elogios, goste-se ou não do filho de vendedor de chá que subiu a pulso na vida: propõe-se oferecer um seguro de saúde a cem milhões de famílias indianas, as mais pobres de todas. Serão ao todo cerca de 500 milhões de indianos que terão uma cobertura anual por família de 500 mil rupias, cerca de seis mil euros, o que pode parecer pouco na Europa mas equivale ao custo de cinco cirurgias cardíacas na Índia, segundo contas do The New York Times.

Em teoria, os cuidados de saúde são gratuitos no gigantesco país de 1300 milhões de pessoas, mas os hospitais públicos não dão resposta, nem em qualidade nem em quantidade. Com a nova medida, Modi recorre ao sistema privado, que tem expoentes de qualidade, e espera contrariar números tão trágicos como uma esperança média de vida de 68 anos ou os 70 milhões de indianos que todos os anos caem na pobreza por causa da doença.

Veremos se o Modicare (por referência ao Obamacare, que ofereceu proteção na saúde a 22 milhões de americanos) resulta. Seria excelente. Claro, os críticos falam já de eleitoralismo, pois Modi precisaria de algo mais do que a economia a crescer a 7% para poder repetir em 2019 a vitória sobre Rahul Gandhi, líder do Partido do Congresso e bisneto, neto e filho de primeiros-ministros. Que seja eleitoralismo. A Índia é chamada a maior democracia do mundo e isso passa pela competição entre os partidos. Que o façam a salvar vidas.

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Anselmo Borges

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1. Muitas das graves convulsões sociais em curso têm na sua base a globalização, que arrasta consigo inevitavelmente questões gigantescas e desperta paixões que nem sempre permitem um debate sereno e racional. Hans Küng, o famoso teólogo dito heterodoxo, mas que Francisco recuperou, deu um contributo para esse debate, que assenta em quatro teses. Segundo ele, a globalização é inevitável, ambivalente (com ganhadores e perdedores), e não calculável (pode levar ao milagre económico ou ao descalabro), mas também - e isto é o mais importante - dirigível. Isto significa que a globalização económica exige uma globalização no domínio ético. Impõe-se um consenso ético mínimo quanto a valores, atitudes e critérios, um ethos mundial para uma sociedade e uma economia mundiais. É o próprio mercado global que exige um ethos global, também para salvaguardar as diferentes tradições culturais da lógica global e avassaladora de uma espécie de "metafísica do mercado" e de uma sociedade de mercado total.