Estamos de acordo!

A política aos olhos dos eleitores é uma coisa e aos olhos dos eleitos é outra coisa completamente diferente. Não é de agora, mas a chegada de Rui Rio à liderança do PSD veio lembrar-nos a todos que o bem comum é sempre superior ao interesse de cada um.

Rui Rio não tem tido uma afirmação fácil. Do ponto de vista dos seus adversários internos, ele até já é um falhanço confirmado. Mas Rio não está na política para receber medalhas e as suas convicções só podem ser postas à prova pela aderência dos eleitores, nunca pelas jogadas de bastidores.

Rui Rio acredita que é preciso estar ao lado do PS, ou melhor, que é preciso trazer o PS para o lado do PSD, para fazer de Portugal um país viável a médio e longo prazo. Saber o caminho que é preciso percorrer não faz automaticamente de Rui Rio, no entanto, a pessoa certa para o lugar que ocupa. Neste ponto, ele vai ter de provar que entre a teoria e a prática, com ele a liderar o maior partido da oposição, a distância é inexistente.

Contra o poder que estava instalado na São Caetano à Lapa, Rio cedo fez saber - em plena campanha eleitoral interna - que queria desencostar os socialistas da ortodoxia da esquerda parlamentar, para mudar o que tem de ser mudado no país.

O estudo de opinião da Eurosondagem para o Expresso e para a SIC diz-nos que uma larga maioria dos portugueses não só defende os acordos de regime que estão em cima da mesa como quer que os dois partidos vão mais longe. Os portugueses não querem o Bloco Central a governar o país, mas querem que o PSD e o PSD garantam a viabilidade do Serviço Nacional de Saúde. E que se entendam também na Justiça, na Segurança Social, na Educação e noutras matérias em que todos podemos ficar a ganhar.

Da fase em que o PS de Costa e o PSD de Passos Coelho estavam, à partida, em desacordo para esta nova fase, há uma evidência que parece transtornar os que só têm tempo para pensar nos seus próprios interesses: a maioria dos portugueses está de acordo com os pactos de regime.

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De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.

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Os deuses das moscas

Com a idade, tendemos a olhar para o passado em jeito de balanço; mas, curiosamente, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos nem vamos já a tempo de fazer. Cá em casa, tentamos, mesmo assim, combater o vazio mostrando um ao outro o que foi a nossa vida antes de estarmos juntos e revisitando os lugares que nos marcaram. Já fomos, por exemplo, a Macieira de Cambra em busca de uma rapariga com quem o Manel dançara um Verão inteiro (e encontrámo-la, mas era tudo menos uma rapariga); e, mais recentemente, por causa de um casamento no Gerês, fizemos um desvio para eu ir ver o hotel das termas onde ele passava férias com os avós quando era adolescente. Ainda hoje o Manel me fala com saudade daqueles julhos pachorrentos, entre passeios ao rio Homem e jogos de cartas numa varanda larga onde as senhoras inventavam napperons e mexericos, enquanto os maridos, de barrigas fartas de tripas e francesinhas no ano inteiro, tratavam dos intestinos com as águas milagrosas de Caldelas. Nas redondezas, havia, ao que parece, uma imensidão de campos; e, por causa das vacas que ali pastavam, os hóspedes não conseguiam dar descanso aos mata-moscas, ameaçados pelas ferradelas das danadas que, não bastando zumbirem irritantemente, ainda tinham o hábito de pousar onde se sabe.