Do lado certo da história

António Costa acabará por ser reconhecido como o político que mais fez para tornar a política a coisa mais desinteressante de todas as coisas que se podem comentar. É o fim da linha. Há meses que ouço comentadores queixar-se da falta de temas para os programas semanais. Até Manuela Ferreira Leite, na TVI, se viu obrigada a comentar a novela Cristiano Ronaldo. Já ninguém sabe sobre o que escrever. Toda a gente quer férias prolongadas, porque não vislumbra tema minimamente interessante a que se dedicar no verão. A culpa? É de António Costa!

O homem consegue estar sempre do lado certo da história. Verdade ou mentira, o nosso primeiro-ministro tem sempre razão. A Agência Europeia de Medicamentos pode vir para Lisboa e não para Porto, Braga, Coimbra, Fornos de Algodres, Camacha, ilha do Pico e tantos outros sítios que aparecem nos sonhos de António Costa. A culpa não é dele, ele sonhou que podia ser noutro sítio, mas acordaram-no a tempo de impedir que não fosse em Lisboa.

Costa está sempre do lado certo da história. Quando despacha um banco com custos para os contribuintes, a culpa é do anterior governo que não despachou. Quando coloca o amigo na administração da TAP, está a fazer-nos um favor por nos emprestar a competência de um brilhante advogado. Quando não cumpre a promessa de acabar com a sobretaxa, a culpa é do calendário, que tem doze meses.

Isto está de tal maneira que até a popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa passou a ser coisa sem interesse nenhum. O próprio Presidente, mais dia menos dia, vai aperceber-se de que o povo já não quer saber de nada, porque nada é responsabilidade de António Costa. Se a culpa não é de quem manda, de que serve estar a pedir para ser de maneira diferente? Não serve de nada!

É altura de hibernarmos e despertarmos apenas quando nos convencermos de que há sempre alternativa à alternativa. Não estamos todos condenados a estar do lado certo da história. Esse é o desígnio de António Costa.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

A "taxa Robles" e a desqualificação do debate político

A proposta de criação de uma taxa sobre especulação imobiliária, anunciada pelo Bloco de Esquerda (BE) a 9 de setembro, animou os jornais, televisões e redes sociais durante vários dias. Agora que as atenções já se viraram para outras polémicas, vale a pena revistar o debate público sobre a "taxa Robles" e constatar o que ela nos diz sobre a desqualificação da disputa partidária em Portugal nos dias que correm.

Premium

Rosália Amorim

Crédito: teremos aprendido a lição?

Crédito para a habitação, crédito para o carro, crédito para as obras, crédito para as férias, crédito para tudo... Foi assim a vida de muitos portugueses antes da crise, a contrair crédito sobre crédito. Particulares e também os bancos (que facilitaram demais) ficaram com culpas no cartório. A pergunta que vale a pena fazer hoje é se, depois da crise e da intervenção da troika, a realidade terá mudado assim tanto? Parece que não. Hoje não é só o Estado que está sobre-endividado, mas são também os privados, quer as empresas quer os particulares.