A cultura geral começa além do inglês, oh là là

Leonídio Paulo Ferreira

Vou a Paris dentro de dias com a família. Tenho a sorte de ter aprendido francês na escola, de ser casado com alguém que foi educada na Suíça francesa e de ter um filho adolescente que frequenta há anos a Alliance Française. Só a minha filha mais pequena precisará assim de ajuda para se fazer entender em França. Vem isto a propósito de uma entrevista hoje no DN com Marie-Laure Poletti, coautora do livro E o Mundo Falará Francês. Diz a académica que "o francês é uma alternativa à globalização à americana" e sublinha que em África, por exemplo, o inglês poderá não ser a melhor arma de comunicação, como parece já terem percebido as empresas chinesas que investem no continente. Melhor usarem o francês.

Mas esqueçamos por um momento a utilidade económica do conhecimento de uma língua (e hoje em Portugal, com tantos turistas franceses, saber francês até é um bom argumento para arranjar emprego). Pensemos sobretudo como saber uma língua diferente nos dá acesso a outra cultura, a outra sociedade, a outra forma de ver o mundo. Imagino que visitar Paris e tentar usar o inglês como língua de comunicação seja possível, mas não será o mesmo que recorrer ao francês. "Good morning, a baguette, please!" não me soa bem, prefiro o "Bonjour, une baguette, s"il vous plaît!" E que dizer da possibilidade de ler o Le Monde sentado numa esplanada no Quartier Latin ou percorrer as livrarias da Rive Gauche.

O filósofo francês Bernard-Henri Lévy disse um dia que "la culture générale commence au-delà de l"anglais". Descodifico: saber inglês é hoje obrigatório para quem estuda, trabalha e viaja e quer ter acesso ao mundo globalizado. Todas as épocas têm a sua língua franca, e o inglês é a da nossa. E coitados dos ingleses e americanos, o que devem sofrer com a forma como ouvem falar o seu idioma, muitas vezes transformado num simple english que insulta quem venera, e bem, a língua de Shakespeare. É o preço do sucesso.

Mas falar francês, espanhol, português, alemão, italiano, russo, árabe, chinês ou japonês, além do inglês, é realmente ter uma cultura além da geral, até porque não sendo um conhecimento por mera necessidade comunicacional significa um interesse vasto pela cultura de origem.

Pensem em como é bom ler Victor Hugo no original. Ou Cervantes. Ou Goethe. Ou Dante. Certamente será tão recompensador como ler Shakespeare. Porquê ficarmo-nos só por uma língua estrangeira?