América desarmada

Em dois meses incompletos deste novo ano, as escolas americanas já assistiram a perto de duas dezenas de tiroteios. Abrindo o foco temporal, o verdadeiro filme de terror vivido na Florida nesta quarta-feira é o mais recente e o mais mortífero deste género desde o massacre de Sandy Hook, há seis anos, no qual foram assassinados 20 miúdos da primária e seis educadores. Bastava ler ontem os relatos e os excertos da história do mais recente atacante - ex-aluno expulso e revoltado, dono de uma coleção de armas que frequentemente exibia nas redes sociais ao lado de ameaças - para ver que estavam lá todos os sinais de que um dia a coisa podia azedar. Claro que estavam. O problema é que esses pontos só podem ser conectados depois de acontecer o pior. Haverá mil vezes mais casos de potenciais suspeitos que dão sinais inequívocos mas nunca passam disso mesmo. E agir contra ameaças de que só se desconfia que existem, antecipar o que se sente no ar independentemente de haver ou não indícios fortes de que a concretização de um novo ataque está por momentos, significa ultrapassar linhas perigosas.

Limitar fortemente as licenças de armas nos Estados Unidos é uma discussão que é retomada de cada vez que a América volta a sangrar num episódio de terror interno. Os argumentos de um lado e do outro, porém, não se esbatem num único momento. Se uns acreditam que cada novo ataque é mais um argumento irrefutável para a conclusão de que a mortandade se reduziria brutalmente retirando armas das ruas, outros estão cada vez mais convictos de que se não as empunharem eles próprios nunca estarão a salvo porque não há quem verdadeiramente os defenda. Numa sociedade habituada tanto às armas quanto ao crime violento - é o país com mais presos, num total que se aproxima dos 2,5 milhões de pessoas, segundo o Institute of Criminal Policy Research - não há razão absoluta em nenhum dos lados da discussão. Mas é mais do que óbvio que não é possível continuar a adiar decisões. Alguma coisa tem de mudar já, para que as novas gerações cresçam num mundo mais seguro.

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