Aceitar as diferenças

Numa das reuniões do European Muslim Network, que reúnem em Bruxelas speakers de todos os países, discutia-se há tempos a islamofobia, com descrições vívidas sobre os maus-tratos sentidos na Turquia, na Alemanha, em Espanha, em França, na Bélgica. Até que um relato destoou dos demais: "Vivo em Portugal há mais de 50 anos e ali tratam-me como amigo. Não sou o outro, sou o deles, embora saibam que tenho uma religião diferente. Nunca senti isso a que chamam islamofobia." Eram as palavras de Abdool Vakil que espantavam de tal forma a audiência que chegaram a perguntar-lhe se Portugal era o paraíso.

A história é hoje repetida pelo líder da Comunidade Islâmica de Lisboa, na reportagem que marca os 50 anos de presença deste grupo aqui, e vale a pena recordá-la num momento de tão grandes contradições e pensamentos radicalizados como o que hoje se vive no mundo. A razão é simples: a comunidade que aqui existe está de tal forma enraizada que não são as diferenças que prevalecem. Não há guetos ou bairros proibidos, não há olhares de esguelha ou ímpetos de agredir o outro. À mesma mesa, uma mulher católica come fígado de porco e bebe vinho enquanto conversa pacífica e animadamente com um muçulmano que optou por bacalhau e água. E essas relações acontecem com normalidade absoluta. Porque não há quem, por divergência de crença, se julgue superior ao outro.

Muçulmanos e católicos e judeus e até ateus convivem aqui pacificamente porque todos têm espaço para pensar e cumprir a sua fé - ou falta dela - da forma que entenderem. Porque reconhecem mas respeitam a diferença. Porque a maioria de nós não tenta impor a sua visão ao outro. Porque, apesar da religião que cada um professa, sentimo-nos todos parte de uma mesma comunidade. É esta a verdadeira base da aceitação e da tolerância - esteja em causa credo, raça, género ou o que mais nos distingue enquanto seres humanos. O bom senso para reconhecer mas respeitar as diferenças que existem. Porque não há duas pessoas iguais.

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