À espera do imperador

Na sua edição de 26 de maio de 1998, o DN dedicava a fotografia da primeira página à visita do casal imperial japonês à Expo de Lisboa. Não era a primeira visita de Akihito e Michiko a Portugal, mas a sua presença na celebração desses Oceanos que 500 anos antes levaram os nossos navegadores até ao Oriente relembrava o quão especiais são as relações entre portugueses e japoneses. Disso mesmo fui testemunha já este ano numa visita a Nagasáqui, onde deixámos muito boa memória e também um bolo chamado castela que parece pão-de-ló.
Falo de Akihito porque já era a sua família que dava imperadores ao Japão quando os portugueses chegaram ao arquipélago em 1543. Aliás, os japoneses nunca conheceram outra dinastia nos últimos dois mil anos pelo menos e mesmo quando o poder efetivo recaia nos xóguns, os imperadores continuaram a existir e a ser amados pelo povo. Imaginemos então o choque que significa a abdicação agora anunciada e que terá lugar a meio do próximo ano. Uma nova era começará, com filho a substituir pai, mas como não acontecia desde há 200 anos haverá um imperador emérito e, diz-se, discreto e a aproveitar bem os 84 anos (faz este mês).
Um dos desafios do Japão de hoje é o envelhecimento da população. Tem duas causas: o nascer poucas crianças e a elevada qualidade de vida, que potencia o número de octogenários, nonagenários e até centenários. Akihito, embora reivindicando origem divina, assemelha-se pois a muitos japoneses da sua idade, cuja saúde já não aconselha demasiado esforço e exposição. Também, dado o mediatismo do mundo de hoje, é uma questão de proteção da privacidade e da dignidade, e nesse desejo o monarca japonês está bem acompanhado, desde Bento XVI à rainha Beatriz da Holanda, dois casos recentes de abdicação.
País singular (Samuel Huntington dizia dele ser por si só uma das nove civilizações em que o mundo estaria dividido), o Japão é uma democracia que convive na perfeição com o seu imperador. Continuará assim de certeza com Naruhito, que também já visitou Portugal como príncipe herdeiro em 2004 (tal como Akihito em 1985) e conhece tão bem como o pai como o contacto com o mundo moderno chegou ao Japão há meio milénio via os portugueses. Esperemos então pela sua visita já como imperador japonês.

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