Independentistas da triste figura

Quixotesco é um adjetivo que qualquer espanhol entende, inclusive os catalães mais avessos a tudo o que soa a castelhano pois Miguel de Cervantes incluiu um capítulo passado na região entre as aventuras do seu cavaleiro da triste figura. Mas se alguém quixotesco nos pode gerar simpatia, afinal nem todas as causas são passíveis de ser ganhas, já aqueles que se limitam a fazer triste figura nada merecem de admiração.

Olhemos para a recente luta independentista catalã. Podia ter sido quixotesca, com alguns capítulos de bravura mesmo que condenada à partida pela firmeza espanhola, pelas divisões na Catalunha e pela recusa da União Europeia em apoiar separatismos. Mas foi uma luta que fez triste figura aos olhos do mundo, por ter um cabeça de fila errático, líderes apanhados de surpresa pela ação da Justiça, apoiantes muito seguros da sua cultura e língua próprias mas incapazes de aceitar que pelo menos metade dos que vivem na região não partilham da vontade de romper com Espanha.

As eleições regionais de hoje são uma excelente oportunidade para os defensores da Catalunha como nação repensarem o seu modo de agir. E isto tenham ou não maioria no parlamento de Barcelona, pois não serão uns milhares de votos a mais ou a menos que alterarão as convicções de um lado e do outro, muito menos a correlação de forças favorável a Madrid.

O futuro passará pelo diálogo, por uma eventual redefinição da relação do Estado espanhol com as várias nacionalidades dentro da nação espanhola, mas nunca por um separatismo egoísta de região rica, com apoio insuficiente e insistindo numa narrativa de opressão que podia ter contacto com a realidade nos tempos do franquismo mas hoje, em democracia, é uma falácia.

A história da Catalunha, a força da sua cultura, o seu peso na identidade espanhola, podem gerar ambições quixotescas, no sentido de ideais generosos mesmo que inalcançáveis. Mais tristes figuras é que não.

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Elizabeth Warren tem um plano

Donald Trump continua com níveis baixos de aprovação nacional, mas capacidade muito elevada de manter a fidelidade republicana. A oportunidade para travar a reeleição do mais bizarro presidente que a história recente da América revelou existe: entre 55% e 60% dos eleitores garantem que Trump não merece segundo mandato. A chave está em saber se os democratas vão ser capazes de mobilizar para as urnas essa maioria anti-Trump que, para já, é só virtual. Em tempos normais, o centrismo experiente de Joe Biden seria a escolha mais avisada. Mas os EUA não vivem tempos normais. Kennedy apontou para a Lua e alimentava o "sonho americano". Obama oferecia a garantia de que ainda era possível acreditar nisso (yes we can). Elizabeth Warren pode não ter ambições tão inspiradoras - mas tem um plano. E esse plano da senadora corajosa e frontal do Massachusetts pode mesmo ser a maior ameaça a Donald Trump.