Dia de São Putin

Diz-se que nada acontece no último dia do ano, um pouco como no agosto da silly season, o que é falso em ambos os casos, como sabe qualquer jornalista que já teve de estar de serviço enquanto o resto da humanidade prepara o réveillon ou que passou o pico do verão a trabalhar. E não falo de invasões nos tempos do Império Romano, nem de conquistas cristãs aos reinos árabes da Península Ibérica, nem sequer da Batalha de Cananor, em 1501, a primeira em que a armada portuguesa se distinguiu no Índico sob o comando de João da Nova.

Também não destaco aqui os nascimentos, mesmo que seja o de Matisse, o de Simon Wiesenthal, o de Alex Ferguson ou o de Salman da Arábia Saudita. Ninguém poderia imaginar que algum deles seria um dia notícia, a não ser no caso do futuro rei e mesmo assim na época era só o 25.º filho de Ibn Saud. Já as mortes sim, sendo de gente de peso, algum relevo terão sempre, mesmo que a do imperador romano Cómodo tenha sido há quase dois mil anos, a de Catarina de Bragança há três séculos (mas graças a ela os ingleses nunca mais deixaram de beber chá) e a do filósofo Miguel de Unamuno também há umas valentes décadas para poderem contar na carreira de quem ainda está no ativo.

Notícia mesmo, sem dúvida, foi a dissolução da Checoslováquia em 1992, mesmo que anunciada, o início da primeira guerra russo-chechena em 1994, previsível, a devolução do canal do Panamá ao país que lhe dá nome em 1999, combinada, ou a inauguração do Taipé 101 em 2004, agendada. Isto para dizer que grande notícia mesmo, no sentido tanto de importante como de inesperada, num 31 de dezembro foi a demissão do presidente russo Boris Ieltsin em 1999, com o cargo a ser assumido interinamente pelo primeiro-ministro quase desconhecido que só desde agosto se juntara ao Kremlin. Sim, falo de Vladimir Putin, ainda hoje o homem mais poderoso da Rússia e que em 2018 deverá ser reeleito para novo mandato. Convém estarmos atentos ao que hoje vai acontecer no mundo. 2017 ainda tem umas horas.

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