Andar à pedrada nos Himalaias

Afirmava em entrevista ao DN Constantino Xavier que um dos desafios da Índia é "como lidar com uma China em ascensão, mais poderosa e agressiva para com os seus vizinhos, seja no mar do Sul da China ou ao longo da fronteira disputada com a Índia nos Himalaias". O académico português, investigador no Carnegie India, acrescentava que "a questão fundamental estratégica indiana deixou de ser se a China é uma ameaça e passou a ser como lidar com a ameaça China". Ora, estas palavras, proferidas por ocasião dos 70 anos da independência indiana, celebrados na terça-feira, ganham relevância depois de ser noticiado um choque entre tropas indianas e chinesas nos Himalaias, uma troca de pedras que seria caricata se de um lado e de outro não estivessem duas potências com velhas rivalidades e uma guerra travada em 1962 também nos Himalaias. Aconteceu agora na zona oeste da fronteira, perto do Ladakh indiano, mas poderia ter acontecido a leste, junto ao Butão, onde há meses os exércitos indiano e chinês se observam tendo como pano de fundo a vontade de Pequim de construir uma estrada em território que Nova Deli considera ser butanês.

A indefinição das fronteiras nos Himalaias deve-se à geografia, mas também ao colonialismo britânico, que no século XIX e inícios do século XX aproveitou a fraqueza da dinastia Qing na China para impor limites que a Índia independente herdou. Mas a rivalidade indo-chinesa não se limita a essas terras montanhosas, basta pensar como Nova Deli pressionou o Sri Lanka para não vender o porto de Hambantota a uma empresa chinesa, acabando por conseguir que o contrato impedisse a utilização militar.

Parte mais fraca neste braço-de-ferro por causa da atual supremacia económica chinesa, a Índia luta por reduzir essa diferença a médio prazo, ao mesmo tempo que, tal como no passado usou uma parceria estratégica com a União Soviética para se proteger, agora aposta numa relação forte com os Estados Unidos. E entre 3 e 5 de setembro, na cimeira dos BRICS em Xiamen, os líderes chinês, Xi Jinping, e indiano, Narendra Modi, terão uma boa oportunidade para acalmar a tensão militar nos Himalaias, pois um conflito aberto entre um país com 1350 milhões de habitantes e outro com 1250 milhões (mais de um terço da humanidade juntos) seria terrível.

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