A casa pelo telhado

A ideia de que uma proposta de Orçamento costuma entrar na Assembleia, grosso modo, como vai sair tem muito de verdade mas não corresponde ao espírito da nossa Constituição e à responsabilidade que se exige a todos os deputados. Não pode ser estranho, por isso, que a discussão dentro da maioria não esteja terminada.

Não deixa de ser surpresa, no entanto, que desta vez o governo se dê por satisfeito por saber o saldo final - contratado com a União Europeia - e não tenha como certas as parcelas com que vai fazer a soma de cada uma das colunas. A verdade é que se António Costa tivesse a concordância de toda a esquerda para o valor do défice, a responsabilidade maior seria do Bloco e do PCP, que teriam de aprovar receita em valor igual à despesa que propõem, ou corte em despesa velha com o mesmo valor que a nova despesa.

Ora, é evidente que esta é uma luta desigual. Se o Bloco e o PCP querem começar a fazer a casa pelo telhado, definindo linhas políticas sem preocupação com os números, tem de ser o PS a arcar com as consequências. A responsabilidade é dos socialistas, que deveriam ter começado por acordar com os seus parceiros de esquerda aquilo que primeiro acordaram com Bruxelas: o valor do défice.

O que temos como certo é que o Orçamento do Estado, que hoje vamos conhecer, não é necessariamente aquele com que vamos viver em 2017. E sabemos também que, por muito que esperneiem, comunistas e bloquistas não têm condições políticas para o chumbar, fazendo cair o governo.

António Costa, ontem no DN e na TSF, dizia que era preciso harmonizar a reposição do rendimento das famílias [telhado], o melhoramento das condições para o investimento [paredes] e o cumprimento dos objetivos orçamentais [alicerces]. Chegamos aqui com os parceiros deslumbrados a olhar para o telhado e o governo amarrado aos alicerces impostos por Bruxelas.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG