Opinião da Direção

Discretamente, sem ninguém ver

PremiumEnquanto nos Estados Unidos se discute se o candidato a juiz do Supremo Tribunal de Justiça americano tentou, ou não, há 36 anos abusar, ou mesmo violar, uma colega (quando tinham 17 e 15 anos), para além de tudo o que Kavanauhg pensa, pensou, já disse ou escreveu sobre o que quer que seja, em Portugal ninguém desconfia quem seja, o que pensa ou o que pretende fazer a senhora nomeada procuradora-geral da República, na noite de quinta-feira passada. Enquanto lá se esmiúça, por cá elogia-se (quem elogia) que o primeiro-ministro e o Presidente da República tenham muito discretamente combinado entre si e apanhado toda a gente de surpresa. Aliás, o apanhar toda a gente de surpresa deu, até, direito a que se recordasse como havia aqui genialidade tática. E os jornais que garantiram ter boas fontes a informar que ia ser outra coisa pedem desculpa mas não dizem se enganaram ou foram enganados. A diferença entre lá e cá é monumental.

Henrique Burnay

A Emigração Inversa e o Desenvolvimento Tecnológico

Portugal está a viver um momento especial de progresso económico e de paz social, sendo esta fase uma enorme janela de oportunidade para a promoção de um desenvolvimento socioeconómico sustentável. De facto, a integração na Europa e a emergência de um espaço global de cooperação e desenvolvimento implicam que as diferentes sociedades entendam a importância dos fatores que condicionam a economia global, por exemplo a emergência de uma nova era digital no quadro da quarta revolução industrial. De base tecnológica e digital.

Rui Nunes

À falta do Nobel, o Ig Nobel

PremiumUma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Ruy Castro

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

João Taborda da Gama

Em contagem decrescente

O brexit parece bloqueado após a reunião de Salzburgo. Líderes do processo endureceram posições e revelarem um tom mais próximo da rutura do que de um espírito negocial construtivo. A uma semana da convenção anual do partido conservador, será ​​​​​​​que esta dramatização serve os objetivos de Theresa May? E que fará a primeira-ministra até ao decisivo Conselho Europeu de novembro, caso ultrapasse esta guerrilha dentro do seu partido?

Bernardo Pires de Lima

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.

Adolfo Mesquita Nunes

Carpe Diem

PremiumNo épico anglo-saxão Beowulf conta-se que a Grande Rainha Modthryth, sempre que apanhava um súbdito temerário a olhá-la directamente, mandava de imediato amarrá-lo, torturá-lo e esquartejá-lo. No caso da Rainha da Televisão Generalista (©) estas restrições bárbaras não se aplicam: os súbditos não só podem olhá-la directamente como muitas vezes não têm outro remédio. Podem olhá-la directamente no quiosque, podem olhá-la directamente no blogue, podem olhá-la directamente no Instagram, e podem olhá-la directamente no ecrã - de manhã, ao fim da tarde, e até ao sétimo minuto do Jornal da Noite (SIC) de segunda-feira, altura em que Rodrigo Guedes de Carvalho interrompeu pacientemente o alinhamento ("já vamos continuar a perceber como correu o início deste ano lectivo, mas para já...") e anunciou que "a grande contratação do ano" acabara de chegar ao Palácio de Carnaxide, onde vai reinar durante os próximos anos. Anunciou também que a figura contratada pela SIC "por valores nunca dantes navegados" (sic) ia ser submetida a uma "entrevista longa, em que responderá a todas as perguntas que forem jornalisticamente relevantes".

Rogério Casanova

Sequelas do Prémio Camões

Premium Aos domingos, lá pelo meio da manhã, gosto de parar na porta da Nim para dois dedos de conversa, que termina sempre na discussão das qualidades das papaias que ela me convence a comprar. A Nim tem um posto de venda no mercado da Praça Estrela onde, durante a semana, comerceia as verduras que o marido vai buscar em Santiago e no Fogo. Como aos domingos o espaço fica fechado, ela alinha os balaios com a sua mercadoria no passeio em frente da casa, e vestida de um longo avental e um rasgado sorriso, senta-se num banquinho e espera pachorrenta pelos eventuais fregueses. Mas tu nunca descansas, pergunto-lhe. Para quê, responde encolhendo os ombros, este trabalho não cansa, estou aqui sentada, vejo passar pessoas, trocamos mantenhas e novidades, e sempre vou vendendo alguma coisa, tenho três filhos no chão para criar e o planeta não está de brincadeira. Num dia de semana entrei no mercado e não a encontrei. Que é feita da Nim, perguntei a uma vendedeira vizinha. A Nim foi ao cabeleireiro, respondeu. O quê, exclamei espantado, que lhe deu para ir ao cabeleireiro, ainda por cima num dia como hoje? Ela tem um casamento amanhã, hoje podes comprar em mim. É que a Nim tomou-me como sua propriedade: Ele é meu homem, grita para as colegas, ele só compra em mim. E para garantir isso, quando não tem papaia, ela mesma sai a procurar junto das outras para mim.

Germano Almeida

O legado de Joana Marques Vidal

PremiumOs últimos meses foram marcados pelo tema da (não) recondução da procuradora-geral da República, desde que a ministra da Justiça avançou há nove meses com a ideia de que a interpretação que fazia do texto constitucional é que se tratava de um longo e único mandato. Além da lamentável extemporaneidade destas declarações, a tantos meses do término do mandato ficou muito claro desde início que a questão subjacente à recondução de Joana Marques Vidal era de natureza política e não de carácter jurídico.

Margarida Balseiro Lopes

Ex-votos

PremiumNo Estio de 1736, em dia que se ignora, saiu em sua mulinha o beneficiado Manuel Antunes, natural de Barbacena. No caminho das Portas da Esquina para a Horta dos Passarinhos havia uma ladeira pedregosa e íngreme, onde se lhe espantou a mula, por razões desconhecidas. Uma e outra vez caiu ao chão o clérigo, ficando muito ferido, e em muita aflição. Naquele aperto, suplicou aos céus, salvou-se. Em cumprimento da promessa feita, mandou reparar a tosca cruz que por lá havia, campos da Torre das Arcas. O lugar rapidamente ganhou fama de milagreiro. Fez-se então a romaria que ainda hoje perdura. E ergueu-se a ermida que tem o nome de Igreja do Senhor Jesus da Piedade de Elvas.

António Araújo

Saúde e sustentabilidade democrática 

PremiumPenso que não há ninguém que refute que uma das características indissociáveis de toda e qualquer sociedade democrática é a sua capacidade de debater, de uma forma que se quer construtiva e evolutiva, também sobre si mesma e os seus índices de desenvolvimento. Na nossa perspetiva ocidental e europeia, o conceito de democracia parece já enraizado por todos e em todos, ao ponto da quase estagnação. Mas será aconselhável estarmos, enquanto país ou até como membro integrante da união política e económica, tão descansados assim?

Maria Antónia Almeida Santos

A ambiguidade da política

Além do sentido académico da palavra, designando o pensamento político, "teorias políticas", "filosofia política", "ciência política", tal sentido afasta-se do exercício dos que a praticam, tendo em vista o poder de governar. Dão-se exemplos como o de Lord Butler, que a definiu como "arte do possível", cinicamente como D'Israeli, que a definiu como a arte de governar os cidadãos desiludindo-os, ou, finalmente, e cobrindo intenções menos tranquilizantes, entendendo-a com Hitler, como a arte de mobilizar uma nação para defender a sua existência. Em todo o caso, o mais corrente, entre estadistas responsáveis, é entender a política como a arte de conciliar interesses opostos.

Adriano Moreira