Aprender com os nossos erros passados para evitar cometer outros no futuro

O mundo que conhecemos é, e será, marcado por novas megatendências que transformam e transformarão profundamente as nossas sociedades e as nossas vidas coletivas. As alterações climáticas e a digitalização, em particular, exigem que prestemos atenção e aprendamos com as lições do passado.

Quando falamos nas alterações climáticas importa lembrar que a primeira vez que as Nações Unidas se debruçaram sobre a utilização excessiva dos recursos naturais foi em 1949, sendo que em 1968 o Conselho Económico e Social das Nações Unidas convocou uma Conferência sobre o Meio Ambiente Humano, que veio a ter lugar em Estocolmo em junho de 1972, resultando num plano de ação que alertava os governos para a possibilidade das alterações climáticas. Em 1987 o Relatório Gro Brundtland utiliza pela primeira vez a expressão "desenvolvimento sustentável" e, em 1988, quando o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas foi criado, ficaram estabelecidos os instrumentos científicos de base para abordar a sustentabilidade do ambiente.

Sem prejuízo, passámos as três décadas seguintes a discutir se a ciência era ciência! Todos nos recordamos das inúmeras teorias da conspiração sobre as alterações climáticas, todas com argumentos absurdos, com o objetivo de negarem a legitimidade da investigação científica.

No entanto, a ciência não pode ser negada através de teorias da conspiração, mas apenas por mais ciência. Hoje sabemos, como sabíamos antes, mas recusamo-nos a aceitar, que as alterações climáticas são um facto. E, como consequência de todo o tempo desperdiçado em discussões inúteis, somos agora confrontados com a necessidade de alterar em poucos anos um modelo de crescimento económico com 150 anos, o que podíamos ter realizado gradualmente durante as últimas décadas.

E são vários os exemplos do resultado de anos de inércia e negação da ciência:
- A legislação europeia impõe um corte de 55% das nossas emissões de efeito estufa até 2030, e atingir a neutralidade carbónica até 2050, agora tornada mais premente à luz das implicações geopolíticas e geoeconómicas da invasão não justificada da Ucrânia pela Rússia. E objetivos semelhantes - ainda que com diferentes prazos - podem ser encontrados nas agendas 2030 das Nações Unidas e 2063 da União Africana.

- Financeiramente, bancos e fundos de investimento não poderão financiar projetos e negócios que não provem as suas credenciais ambientais.

- Finalmente, os consumidores são cada vez mais exigentes no que respeita a sustentabilidade dos bens e serviços que desejam consumir.

A geopolítica, a legislação, o acesso ao financiamento e os mercados estão a pressionar governos e sociedades a concretizarem nos próximos 13 anos aquilo que ficou por fazer nos últimos 50. E teremos de alcançar esses objetivos sem prejudicar as legítimas expectativas de crescimento de grande parte do mundo.

A segunda megatendência é a da digitalização, automatização e inteligência artificial. Dos inúmeros desafios que a transição digital nos coloca, há uma pergunta que continua sem respostas claras: nós sabemos que empregos desaparecerão, mas ainda não conseguimos perceber de forma clara quais serão os empregos do futuro. E essa incapacidade tem implicações várias, sendo três delas evidentes:
- Sem conhecermos que empregos teremos amanhã como é que poderemos adaptar as escolas e as universidades às necessidades de formação dos futuros empregos?

- Como poderão empresas e organizações repensar os seus modelos de trabalho se não sabemos que trabalhos serão esses?

- A Europa e o mundo corre o risco de tal, como a Alemanha após a reunificação, ter de lidar com uma "geração 10-10", ou seja, uma geração 10 anos demasiado velha para se adaptar e 10 anos demasiado nova para se reformar?

Depois de perdermos décadas a discutir se o aquecimento global era uma realidade científica, só para termos de lidar agora com as consequências dessas décadas perdidas, deveríamos evitar cometer o mesmo erro. Precisamos de ciência e conhecimento para respondermos adequadamente aos desafios nos batem à porta.

O Governo não tem ficado parado à espera do futuro, e tem trabalhado para garantir, com base naquilo sabemos hoje, uma verdadeira transição digital. A título de exemplo, temos instituído políticas públicas focadas na qualificação e formação na área digital de jovens e da população adulta.

Como é natural, a internacionalização da nossa economia não fica à margem destas realidades. O crescimento económico, o desenvolvimento social e a sustentabilidade ambiental impõem a transição das nossas empresas, nomeadamente as PME, para as economias verde, azul e circular e a para a digitalização.

Já perdemos demasiado tempo a discutir se a ciência era ciência. Tentemos não cometer os mesmos erros no presente, se quisermos dar resposta aos desafios do futuro, o que implica uma colaboração intensa e aberta com escolas, universidades, centros de investigação, empresas, sindicatos, fundações e organizações da sociedade civil. É caso para dizer que todos não seremos demais.

Secretário de Estado da Internacionalização

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