O último ditador da Europa

A democracia na Bielorrússia foi, por enquanto, um fugaz momento na história.

Após a queda da União Soviética, a Bielorrússia realizou as primeiras eleições presidenciais em 1994, que o até então quase desconhecido Alexander Lukashenko conseguiu vencer por larga margem. De acordo com observadores internacionais, essas eleições ocorreram de forma livre e regular. Foram as únicas.

Desde então, o líder bielorrusso foi sucessivamente concentrando mais poder, aumentando a repressão sobre a oposição e ganhando eleições crescentemente contestadas e denunciadas como não livres ou democráticas.

Pelo meio, como qualquer bom ditador, a perseguição a jornalistas e opositores, bem como uma poderosa polícia secreta (que, sintomaticamente, manteve o nome de KGB), foi assegurando que as vozes dissidentes eram silenciadas, incluindo com pesadas penas de prisão. Numa entrevista à Reuters, vangloriou-se: "Eu sou o último ditador da Europa." Infelizmente, talvez não seja.

Nas eleições do ano passado, sob forte contestação e perante a evidente vontade de mudança, Lukashenko teve ainda o desplante de falsificar os resultados eleitorais para uns ridículos 80% de votos a seu favor.

Multidões saíram à rua em protestos violentamente reprimidos.

Ao não reconhecer os resultados eleitorais e aplicar sanções contra os dirigentes bielorrussos, a União Europeia tornou-se alvo de retaliação por parte de Lukashenko. Mas as suas capacidades reais são limitadas.

O país é atravessado por importantes pipelines de que a Europa Central é fortemente dependente, o que lhe confere relevância em face da dependência energética europeia. Porém, interromper o fornecimento de gás não apenas iria indispor o amigo Putin - que precisa dessas receitas -, como aceleraria a finalização do novo gasoduto que liga diretamente a Alemanha à Rússia sob o mar Báltico, reduzindo a importância estratégica (e as receitas) da Bielorrússia.

À falta de outras ideias para reagir às sanções europeias, Lukashenko não se lembrou de melhor do que usar a vida de pessoas indefesas como arma, indo buscar refugiados do Médio Oriente, sobretudo sírios e iraquianos, para os levar para as fronteiras com a União Europeia.

Levar milhares de pessoas, incluindo crianças, para uma fronteira que não podem atravessar, para enfrentarem temperaturas negativas e fome, é de uma desumanidade sem limites. Sem surpresa, morreram pelo menos uma dezena.

Do lado europeu exigia-se uma resposta humanista. Mas as ações dos países da região, em particular da Polónia, foram também deploráveis.

Deixaram os refugiados sem acesso a comida e assistência médica, impediram o acesso de organizações não governamentais que pudessem apoiar as pessoas e fecharam completamente a fronteira para que ninguém conseguisse pedir asilo à luz do direito internacional - alguns teriam direito, outros eventualmente não, mas isso apenas poderia ser apurado se lhes fosse permitido efetuar o pedido.

Alguma direita europeia fala agora na construção de um muro nas fronteiras da Europa, como se isso fosse solução. Parecem esquecer o muro que dividiu a Europa durante tanto tempo. Caiu há 32 anos. Não repitamos os erros.

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Olaf Scholz

Depois de semanas de negociações, sem ameaças ou reivindicações exageradas e por isso votadas ao insucesso, ontem foi anunciado o acordo que vai tornar Olaf Scholz chanceler da Alemanha. Uma boa notícia para a Europa.

Eurodeputado

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