O triunfo dos javalis

Com aquela capacidade que só ele tem para identificar os problemas estruturais do Brasil, o candidato Jair Bolsonaro prometeu na campanha eleitoral de 2018 guerra aos javalis.

"Temos de liberar a caça ao javali e ponto final. Não temos como conviver com javalis. Alguns falam em castração, mas não tem como castrar. A velocidade de procriação é enorme, três crias por ano, uma fêmea chega a gerar 50 filhotes", anunciava ao país pouco antes de ser eleito, conforme recordou Álvaro Costa e Silva, colunista do jornal Folha de S. Paulo.

Mas o presidente cuja primeira medida no Planalto foi demitir o fiscal que seis anos antes o multara por pescar numa área protegida, tinha, além dos pobres javardos, outros alvos definidos naquela campanha: a "velha política" corrupta de Brasília, acima de todos.

Na convenção que há uma semana o escolheu candidato à reeleição pelo Partido Liberal (PL), entretanto, fez-se fotografar com uma das mãos dada ao presidente do partido, Valdemar Costa Neto, aquele que, mesmo preso no Escândalo do Mensalão, comandava o PL da penitenciária, e a outra dada a Collor de Mello, que, enfim, é Collor de Mello.

Além de javalis e corrupção, em 2018 Bolsonaro mirava, a cada discurso, o "centrão", aqueles cerca de 200 parlamentares que apoiam o governo de ocasião, seja ele qual for, desde que contemplados com fatias generosas do orçamento. Num comício, Augusto Heleno, braço-direito de Bolsonaro, trocou até "ladrão" por "centrão" nos versos de um samba clássico, gerando risota numa plateia de "homens de bem".

Quatro anos depois, na mesma convenção em que trocou afagos com Valdemar e Collor, o presidente declarou-se ao líder do "centrão" Arthur Lira - "Eu sei que a figura mais importante hoje aqui sou eu, mas se não é o Lira, não teríamos chegado a esse ponto" - perante aplausos dos "homens de bem", entre os quais Heleno.

Naquela campanha de 2018, o aspirante ao Planalto que não gostava de javalis, de corrupção e do "centrão", atacava também o Bolsa Família, programa do Partido dos Trabalhadores (PT) de subsídio aos mais pobres. "Se um candidato a presidente tem de falar que vai ampliar o Bolsa Família para ganhar votos, então votem noutro", dizia Bolsonaro, para quem o programa era um "bolsa migalha" que servia apenas "para tirar o dinheiro de quem produz e dar a quem se acomoda".

À entrada para a campanha deste ano, aumentou o auxílio aos carentes em 200 reais. Afinal, diz hoje, "é um programa para o qual, por questões humanitárias, temos de olhar com muito carinho".

Mas, mais do que com os porcos bravos, os políticos corruptos, os deputados oportunistas e o "bolsa farelo", o que Bolsonaro queria mesmo em 2018 era acabar com o PT. "Vamos fuzilá-los", prometeu para delírio de uma plateia de "bons cristãos". "E mandá-los para a ponta da praia", acrescentou, numa alusão ao local para onde eram despejados os corpos dos executados na ditadura militar.

Pois quatro anos depois, o PT, com os seus programas sociais, arrisca-se, segundo as sondagens, não só a voltar ao poder como a ganhar, pela primeira vez na sua história, a eleição presidencial logo à primeira volta.

E o "centrão" floresceu. E a corrupção corre solta pelos ministérios. E até os javalis, para desespero dos agricultores, continuaram a reproduzir-se sofregamente no bolsonarismo e são hoje, segundo estatísticas do setor, três vezes mais do que em 2018.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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