O terrorismo está de volta (se alguma vez deixou de estar presente)

O início do mês sagrado muçulmano do Ramadão será obviamente um novo desafio para a segurança em Israel, como foi no ano passado. Os quatro ataques que já aconteceram no país contra civis são um sinal claro de que o apoio entre os palestinos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza a esse tipo de ataque suicida mais simples é forte e que envolverá ocasionalmente também árabes de Israel. Atirar indiscriminadamente contra civis em Israel é a forma de terrorismo mais difícil de ser controlada e evitada. Desde há anos que existem aberturas na cerca que separa Israel da Cisjordânia, que são até mesmo toleradas pelas autoridades israelitas, permitindo que centenas de palestinos venham trabalhar sem autorização e com isso tornando menos difícil a situação económica no território ocupado. Agora, essas aberturas serão fechadas, as pessoas da Cisjordânia não poderão vir trabalhar e a raiva aumentará ainda mais. É uma pré-condição usual para os ataques desesperados dos jovens palestinos contra os cidadãos israelitas.

O governo do primeiro-ministro Naftali Bennett está numa posição política muito difícil, perdeu a maioria no Knesset e está a apenas um passo do colapso da coligação de oito partidos. Este governo está agora numa situação ainda pior, tendo de encontrar uma resposta para os ataques terroristas nas ruas de Israel e mostrando que a segurança é mais importante do que formar uma nova coligação ou ir a novas eleições. Aconteceu no passado e acontecerá novamente.

É de se esperar que o governo reaja com medidas muito fortes, garantindo que os palestinos sem autorização de trabalho não cruzem a cerca e entrem em Israel. Do ponto de vista da segurança, é algo que tem de ser feito. Mas, do lado político e económico, avizinha-se outro desastre no horizonte.

As orações na Mesquita Sagrada Al-Aqsa em Jerusalém são tradicionais para a população muçulmana de Israel, sendo que alguma é da Cisjordânia. Se não for permitido que um grande número venha rezar, a manifestação pode começar a ser muito violenta e os confrontos com a polícia israelita são inevitáveis. Esse tipo de confronto motivará mais jovens palestinos a tentarem tornar-se "mártires" atirando indiscriminadamente em israelitas sempre que puderem. Claro, eles serão mortos, mas também matarão outros e esse tipo de círculo de violência alimentar-se-á a si próprio para ser repetido várias vezes.

Toda a gente sabe que por trás desses problemas está a questão do futuro dos palestinos em Gaza e na Cisjordânia. Não há negociações, nada está a acontecer, exceto alguma cooperação de segurança com a polícia da OLP. A situação política não é favorável a quaisquer concessões, sem as quais nunca haverá acordos. O governo israelita é predominantemente de direita, o que dificulta poder falar sobre a solução dos dois Estados e o lado palestino também está dividido, tendo problemas até para garantir a implementação de algo que possa vir a ser acordado.

Esta é uma situação bem conhecida no Médio Oriente, onde a violência está só à espera ao virar da esquina para assumir a liderança quando puder e trazer sofrimento a todos. Política, religião, economia são as questões que não podem ser deixadas de lado e aparecerão à superfície da forma mais perigosa - terrorismo sem uma solução real para o seu fim.

Antigo embaixador da Sérvia em Portugal e investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE

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