O semestre da inversão

No assinalar dos seis meses de guerra na Ucrânia, marcando ironicamente um semestre de invasão no dia em que se celebra a independência nacional, a conclusão mais repetida entre analistas é que o mundo mudou e nunca mais será o mesmo. Trata-se de uma noção válida, apesar de conter nuances que ultrapassam o seu simplismo. O mundo mudou, sim, mas já estava antes em mudança. E nunca mais será igual, é verdade, mas não sabemos ainda o que será.

Seis meses depois de Vladimir Putin invadir a Ucrânia, os seus objetivos imediatos - capitulação das forças armadas, substituição do regime e deseuropeízação do país - não foram cumpridos. A resistência ucraniana ao cerco de Kiev, nos primórdios do conflito, e a adesão ocidental à sua luta surpreenderam ambas as frentes que o disputam. Mas não foi só Putin que viu metas frustradas ou adiadas, nem Zelensky o único a espantar o mundo com a sua mobilização (dentro e fora de portas). É um erro analisar esta guerra como regional ou continental. O impacto causou mudanças que são definitivas - e definidoras - de novos equilíbrios de poder na arena internacional. A ordem instituída após a II Guerra Mundial, que carecia já de reforma após a crise global da pandemia, será erguida sobre alicerces forjados no fogo do leste europeu. A forja, todavia, não é de martelo único. Sentimo-lo nestes seis meses de guerra. E de forma global também, os próximos seis reforçarão o sentimento.

A invasão da Ucrânia causou movimentos e quebras de tradição como o fim da neutralidade suíça no que toca a sanções, a integração da Suécia e da Finlândia na Aliança Atlântica, a desistência da aproximação de Macron a Putin, a assunção de novas responsabilidades militares pela Alemanha e uma reaproximação dos Estados Unidos à Europa como não se via há mais de uma década. A imprevisibilidade característica da guerra proporciona episódios quase excêntricos como o governo alemão, coligado com ecologistas, apostar no carvão e a debater o nuclear, ou o exército indiano, que em 2020 perdeu soldados num tiroteio fronteiriço com a China, estar no final deste mês em exercícios conjuntos com o exército chinês e tropas russas.

O próximo semestre não será menos incerto ou propício a originalidades. E vale a pena olhá-lo com uma série de questões que só crescerão em importância. A primeira: quão relacionadas estarão as tensões em redor de Taiwan e o futuro da integridade territorial da Ucrânia? A segunda: podem os Estados Unidos apoiar ativamente duas frentes de guerra tão distantes, tão coincidentes e tão arriscadas sem uma escalada nuclear? A terceira: o mundo depois desses conflitos será mais multipolar, como as potências revisionistas aspiram, mais unipolar, com os EUA a manterem a supremacia, ou antes nulopolar e por isso mais instável? A quarta: que papel conseguirá ter a União Europeia no novo multilateralismo dessa realidade por conhecer? A quinta: pode o Ocidente sancionar a Rússia, embargar a Rússia, censurar a Rússia sem sofrer mais do que ela e correr o risco de se tornar mais parecida com ela? A sexta: deve a UE aceitar um Estado-membro com parte do território ocupado? A sétima: continuarão os países da esfera pós-soviética - Arménia, Cazaquistão - distantes da guerra? E finalmente: que incentivo prevalecerá nas sociedades livres: o económico, com a chegada da estagflação e o sofrimento social que ela causará, ou o político, com a solidariedade democrática a sobreviver a esses sacrifícios?

É impossível saber.

E inevitável descobrir.

Colunista

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