O que tem a crise a ver com o design?

Tudo. E quando digo tudo, é mesmo tudo! O design não é uma maquilhagem que se aplica num produto para esconder as suas rugas, para o tornar mais bonito. É na verdade muito mais que isso. É como funciona, é para que serve e acima de tudo é como resolve um problema. Em suma, é uma actividade económica, é um serviço que presta um serviço a outras atividades. Não havendo muito dinheiro, será uma das primeiras coisas a cortar.

Óbvio! Para que serve uma cambada de jeitosos que só sabe fazer bonecos? Concordam?

Nas décadas de 1970, "80 e "90 design mais interessante foi feito ao serviço do estado português, mais propriamente nas áreas da cultura, cobrindo desde a política local aos grandes eventos culturais. Esta política da cultura alavancada pelo design assegurava um fluxo de criações nas suas diferentes áreas, dos ambientes ao equipamento, do gráfico ao multimédia. E assegurava, ou poderia assegurar acima de tudo, um incremento na exportação de produtos portugueses. E o que fizemos? Pouco, para não ser muito caustico.

Se olharmos para a frente, eu diria que, o cenário é pior ainda. Como já escrevi há umas semanas atrás, o "Programa 2030" que o Governo propõe para inovação e desenvolvimento do nosso país, não explora o design como motor de crescimento nem tão pouco qualquer atividade de criação. E porquê? Talvez porque somos o país numa eterna crise, pois nem a carga fiscal que nos rebenta na carteira todos os meses como uma onda gigante da Nazaré melhora os cofres do estado. E agora em cima de tudo isto somem-se as agressivas políticas de austeridade, cortando no que sobra: na despesa pública. Ou seja, corta-se no design. Assim, devido à crise, o design português começa a perder a sua identidade. E com a perda de identidade do design, perde-se a identidade de um país. Os nomes de referência dos anos 50, 60 e 70, que construíram uma identidade portuguesa nas diversas dimensões da profissão vêm o seu legado a desmoronar-se.

Esta forma de pensamento está errada, pois pergunto: criamos e inovamos baseado em quê? Quem ajuda o país a pensar numa maior modernização, numa maior diferenciação e acima de tudo numa maior criação de novos produtos, novos serviços?

Veja-se a estratégia do governo através da sua composição. Os mesmos! Pessoas diferentes, os mesmos perfis. Ou seja, vão fazer o mesmo à espera de que o resultado seja diferente. Isto tem um nome que agora não me recordo qual é...

Designer e diretor do IADE - Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação da Universidade Europeia

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG